Uma leitura semiológica para um existencialismo em Rodomel Rododendro de Albano Martins



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Uma leitura semiológica para um existencialismo

em Rodomel Rododendro de Albano Martins



por Joaquim Matos

Comunicação a apresentar de 2 a 3 de Novembro de 2000, na Universidade Fernando Pessoa, em homenagem aos "50 Anos de Vida Literária do Poeta Albano Martins."



I – Prolegómenos para um enquadramento histórico-literário de Rodomel Rododendro.

1 – Ruptura histórica: fim de um humanismo.


Alterada a natureza laboral histórica e com ela as filosofias económicas e políticas, com a Revolução Técnica seguida da Revolução Industrial, altera-se o tecido social, onde um novo homem se modela. O fumo da fábrica, da locomotiva, do barco, são a bandeira desfraldada de uma nova era. Altera-se o sentir e o pensar, as apetências e as carências, as solicitações, os hábitos e os costumes, os operadores da existência, a atitude perante a vida, os comportamentos, as relações humanas, a comunicação, a linguagem. O homem passa de dependente de si mesmo, do homem mesmo, a dependente da máquina. E nesta transformação, vêem alguns o fim do humanismo e com ele o fim das suas expressões. Num ritmo de aceleração progressiva e vertiginosa, assiste-se à derrocada de uma civilização, pedra a pedra, e ao surto de uma civilização outra. No seu crescimento, a revolução técnico-industrial é, nos fins do séc. XVIII, uma criança inocente, no séc. XIX, um adulto perverso consciente, no séc. XX, um monstro devorador que traga o corpo e a alma do homem, demolindo os seus alicerces, as suas referências, deixando-o à deriva num mar nocturno, onde dificilmente se vislumbra uma ou outra esperança. Entre o passado e o presente se vai erguendo uma muralha, criando opostos, antagonismos, que degeneram em combates sem fronteira a tudo o que é passado, que passa a ser um corpo estranho no corpo do homem moderno.

2 – Clássico e Moderno.


Os conceitos de Clássico e Moderno, em rigor, em sua profundidade, em suas raízes, vinculam-se obrigatoriamente a factores históricos que determinam a fisionomia existencial a que andam ligadas as suas expressões. Não resultam de uma obra, de uma teoria, de uma vontade, mas dos estímulos do devir histórico. O Renascimento, que interrompe a Idade Média, alterando-lhe o curso histórico, é um regresso, grosso modo, à Época Clássica greco-latina, o que só é possível pelas afinidades factoriais existentes entre elas. A arte, mesmo quando se pretende a arte pela arte, anda sempre vinculada à história. Os gregos modelaram uma cultura própria, ainda que com heranças de outros povos, e os romanos completaram-na em alguns aspectos, ou aprofundaram-na, ambos na base do comércio e de uma hegemonia geográfica, que passaram pela organização, pela disciplina, pela procura da harmonia, pela conveniência, pela beleza, factores enunciados no conceito grego de cosmos, a que andam outros afins, comum taxis, disposição ordenada, nous, capacidade de pensar e de deliberar, etc., o que não estará ausente de um conceito de concreto, de um conceito de objectividade, paradoxalmente arruinados pela ciência e pelo pensamento modernos. As filosofias e as teorias são sempre a posteriori, já desde a Poética de Aristóteles. E porque a arte pressupõe a vida em sua história, é nesta que se devem procurar as razões das expressões e não em características de superfície, ignorando as suas determinantes legítimas. Nesta perspectiva se devem considerar clássicos, em Portugal, os séculos XVI, XVII e XVIII, e Moderno, a partir da ruptura histórica com o advento da nova era técnico-industrial. E enquanto o homem for produto desta, continuaremos na Modernidade, por muito diferentes que pareçam as suas expressões artísticas. Só com uma nova ruptura histórica se assistirá a uma nova era. Falar em Pós-Modernidade, como se nela se vivesse, historicamente só por falta de aprofundamento das questões.
3 – Homem tecnológico e sua descrição temática.
Da relação homem-máquina resulta um novo perfil de homem, um novo recorte existencial, com novos desafios existenciais e históricos, que actuam no sentir e no pensar, em que o eixo tradicional homem-manufactura-homem é substituído pelo eixo homem-técnica-homem. Esta nova correlação em que o homem é secundarizado pela máquina na produção, desencadeia tensões entre opostos, legítimos, paradoxalmente e aparentemente inconciliáveis, como o individual e o colectivo, a pessoa e a sociedade, por onde se configuram romantismos e realismos, nas suas expressões literárias já carregadas de artifícios. Nessa tensão, ou tensões, manifesta-se uma morfologia existencial que será temática do homem da modernidade e que será a referência obrigatória e primeira para determinar no espaço e no tempo qualquer obra, se espaço e tempo não forem encarados como conceitos abstractos, mas como elementos inalienáveis da história. Embora de todos os tempos, surgem como problemas corporizados pela história, subjugando, o que anteriormente não era dominador, apenas afloramento anulado por preocupações mais imediatas, de subsistência. E adquirem pertinência referencial a vida e a morte, o efémero e o eterno, o limite e o ilimitado, a frustração e a angústia, a esperança e a desilusão, o sonho e a realidade, o vazio e o niilismo, a procura de uma explicação consequente para a vida, interrogando todos os valores tradicionais, Deus e o sentido do universo, as limitações humanas perante o discurso indizível do desconhecido, numa toada de dor, de resignação ou de revolta, nos casos menos trágicos de prazer, numa linha de carpe diem.
4 – Os ISMOS e a Modernidade, novas expressões e novos conteúdos.
A Época Clássica desenvolveu conteúdos e expressões que lhes eram inerentes, um rosto determinado em suas linhas por uma ossatura subjacente. O mesmo se passou com a Idade Média e com o Renascimento. Rostos nítidos que correspondem a ossaturas próprias. O mesmo se passa com a Modernidade e é nessa perspectiva que se devem procurar as razões dos ISMOS, como diversidade vinculada a um todo, ao mesmo todo, todo que se explica numa perspectiva unitária. Nessa diversidade encontramos o Romantismo, o Naturalismo, o Realismo, o Parnasianismo, o Simbolismo, o Decadentismo, o Expressionismo, e muitas outras designações superficialmente e apressadamente transformadas em conceitos, a última das quais é o Pós-Modernismo. Estas designações têm funcionado como carimbos, estereótipos, que se manuseiam como ostentação erudita, ou como caminho mais fácil para conclusões, mais fáceis, mas também mais perversas, com graus diferentes de perversidade. Este jeito de carimbar, é reflexo ainda de hábitos não extintos de épocas anteriores, que entram em contradição com a natureza multifacetada do sentir e do pensar na Modernidade, onde singular e plural se explicam numa correlação dialéctica, no lado oposto do positivismo conteano. O aparecimento dos ISMOS corresponde ao processo de manifestação das faces da Modernidade, sempre em crescimento na descrição da sua identidade. E isto verifica-se de escritor para escritor, ou de artista para artista, ou de filósofo para filósofo, como até no mesmo escritor, no mesmo artista, ou no mesmo filósofo. Sirva de exemplo, por economia de tempo, o caso de Baudelaire, ora com carimbo de simbolista, ora com carimbo de decadentista. Leia-se a obra, que lá se encontrarão outros ISMOS. O seu nome não pode ser bandeira de um ISMO, fundamente-se a sua razão, que não seja a de uma corrente ou escola, mas a de uma face da Modernidade. E isto para não aferir a obra de Baudelaire com os parâmetros teóricos que se foram desenvolvendo na fumaça do conceito, ou melhor, da designação. E mais calamitosa ainda é a designação de Pós-Modernidade, ex nihilo, sem suporte material, que, no caso presente, é o corpus da história, com o seu rosto próprio, visível na totalidade de homem moderno. O homem da informática, em que já pouco, ou nada, se reconhecerá do antigo humanismo, que precedeu a Modernidade? Aguarde-se. Não vem mal ao mundo pela utilização dos carimbos, pelas suas vantagens de comunicação mais rápida, desde que não se caia num seguidismo abstracto, generalizado quase até ao desaparecimento dos seus fundamentos, apresentados como produtos acabados, para consumo massificado, empacotado, com preçários. Ponha-se cobro à hereditariedade do fácil, suspeito e sem rigor. As expressões da Modernidade, tal como os seus conteúdos, são fruto do seu grande eixo, a procura, que é colectiva, mas que se diversifica até ao singular. É a insubmissão a normas, porque tudo é posto em causa, pela ansiedade generalizada posta pelas novas questões da história, que se aprofundam, sem conclusões que alimentem as apetências humanas claramente mais exigentes e mais conscientes. Antes da Modernidade, temos a norma, com a Modernidade temos a sua recusa, e é esta recusa, que também é da história, que explica a diversidade, a existência de ISMOS num só corpo, e nem sempre bem definidos, ou, pelo menos, comumente aceites. É possível reunir, para cada ISMO, elementos para um corpus doutrinário, que seja referência, conceito pragmático, mas que seja esse corpus o critério de legislação, e nunca um autor, ou uma obra, que só em casos raros será possível. E isto, na generalidade, para a expressão, porque, quanto ao conteúdo, o parcelamento nunca deverá alienar-se da semiótica histórica.
5 – Os operadores estruturais e semânticos em Rodomel Rododendro.
O interseccionismo, que geralmente e exclusivamente se liga a Fernando Pessoa, é uma das ferramentas utilizadas na Arte Moderna, de forma tão marcante que poderá considerar-se como uma inovação, ainda que nem sempre utilizado com a mesma mestria, porque do manuseante se exige um domínio que passa pela cultura, pela fácil aplicação dos materiais nas suas montagens, pelo gosto, pelo bom senso. Rodomel Rododendro é exemplo claro da sua aplicação, da intersecção de planos temporais e espaciais. O interseccionismo não é um artifício fechado em si, à boa maneira barroca, é uma abertura para a complexidade moderna oposta ao estaticismo clássico, é a procura das relações últimas a nível humano e a nível cósmico, é a procura de uma linguagem globalizante, para utilizar um termo tão em moda. Ele já se encontra implícito, de certa forma, em designações como metáfora, símbolo e outras, que mais não são que cruzamentos de planos. Mas, agora, de um cruzamento em que os planos se anulam num só plano, pelas correlações criadas, agredindo os saberes tradicionais, o objectivo e o concreto tradicionais, criando uma abertura para novas formas de pensar e de sentir, plural, global. Desaparece o tempo tripartido, passado-presente-futuro, as correlações enlaçam as ocorrências num só tempo, que se torna intemporal, porque tudo está presente a nível do sentir e do pensar. Em Albano Martins dilata-se o conceito de interseccionismo, que deixa de ser apenas sintagmático, operação em linha, para ser trans-sintagmático, correlação entre sintagmas diferentes. Veja-se, por exemplo, o pretérito anafórico das páginas 11 a 13, que é absorvido pelo presente na página 14, ambos se contaminando, pretérito e presente. Também funcionam como operadores interseccionistas os apostos em frases elípticas, sem verbo, entre pretérito e presente, criando uma fluidez globalizante. O mesmo acontece com o espaço, que passa a ser espaço de espaços. Na incapacidade de dominar o absoluto, o poeta, paradoxalmente, o afirma pelos meios que estão ao seu alcance, com a ferramenta que lhe é acessível. O que explica uma das indefinições do homem moderno, na sua busca angustiante de uma definição, de um suporte existencial. A saudade, que pressupõe passado e presente, tende a anular-se por esta óptica, e o passado é vivido como presente, chegando, em Albano Martins, a permutar com o futuro. Rodomel Rododendro é uma explosão poética, existencial, onde tudo é presença que se vive numa só explosão, que não é síntese, mas interseccionismo.

Em consonância com esta trama, verifica-se uma reversibilidade da descrição e da narração. Descrição e narração são dois conceitos normativos e, como tais, definíveis e distintos. Mas são interdependentes, correlativos, reversíveis. Na sua expressão morfológica, a descrição adquire o seu corpus na adjectivação, na enumeração dos seus elementos dominadores. Dá-nos contornos que individualizam, que afirmam o singular perante o plural. A narração é traçada pela dramaticidade, isto é, pela acção, pelo movimento, sob o patrocínio do verbo. Normativamente, a descrição dá-nos planos estáticos, a narração, planos dinâmicos. Mas estático e dinâmico são reversíveis, se perfurarmos a superfície dos conceitos. Numa narrativa procuram-se os comportamentos, os gestos, as atitudes, que se desdobram no espaço e no tempo de uma personagem. Esses elementos não nos dão apenas o que acontece, mas também o rosto do seu agente, implícitos nesses comportamentos, nesses gestos, nessas atitudes. A descrição, estática, adquire a sua legitimidade num plano dinâmico, tal como a narração nos seus pressupostos estáticos, do foro afectivo, cognoscível e activo. A narrativa, na verdade, é a grande descrição da personagem, e a descrição, levada ao infinito, coincidiria com a narração. Em Albano Martins, mais propriamente em Rodomel Rododendro, há uma operação de apagamento da fronteira que separa normativamente esses dois conceitos, que, por um lado, corrobora com o que se acaba de expor , por outro, cria a fluidez moderna que dá acesso a um sentir e a um pensar telúricos e cósmicos, que trespassam a órbita da existência tradicional e ensaiam o dizer do indizível, o que se coaduna com o interseccionismo já referido, o que denuncia uma ânsia do absoluto subjacente, que nasce com as conquistas tecnológicas, que, por sua vez, oprimem o homem nas suas limitações, criando-lhe a angústia da impotência no desejo de uma afirmação que se quer pessoal, com as despesas todas à sua conta, como uma inveja ontológica divina.

Na mesma linha funcionam os rumores da linguagem nas metamorfoses da língua. Independentemente da vontade do utente, os signos são transportadores de cargas semânticas e de evocações de contextos, ainda que de umas e de outros pareçam alienados. Serão sempre rumores de linguagem, em maior ou menor grau, mais consciente, menos consciente. Em Rodomel Rododendro, esses rumores são conscientes, são procurados, ou assomam na legitimidade do devir. Permita-se uma exemplificação com um excerto (págs. 12 e 13, op. cit.): " Sobre dunas de lixo amarfanhado, o peito aberto ao corredor das gaivotas. Secreções de brancura, o Cabedelo como um lagarto de areia ao sol. O verão molhado aos nossos pés como uma nuvem grávida de sementes. Uma nuvem de espuma. Da cor da febre.". " Secreções de brancura" , " lagarto de areia ", " nuvem grávida de sementes ", " nuvem de espuma ", "febre ", potenciam, pelos seus rumores, uma presença erótica, que parece refugiar-se num hermetismo que se deseja. Pelos rumores da linguagem se liberta um soro que denuncia uma existência, outra forma de interseccionismo acontece, na forma de fluido, onde as metamorfoses da língua se esgotam no dizer do indizível, a pedir uma leitura semiológica, a possível, para tal poema.

A musicalidade em Rodomel Rododendro também funciona como um operador poético aglutinante de lexemas, sememas e semas. A obra é uma pauta musical com cinco andamentos, que nos apanha na sua toada, nos leva, nos isola do que lhe é estranho, que nos exige um só fôlego, se a quisermos surpreender na sua integridade. A musicalidade contribui para a fusão do aparentemente avulso, fazendo do texto um só corpo, o da sonoridade do devir existencial, que no poeta se procura total.


6 – Uma leitura semiológica como método para uma hermenêutica.
Pelo exposto, considera-se a interpretação do texto mais protegida com uma leitura semiológica, a que permite estabelecer conexões entre sememas, o regresso a seus sintagmas primeiros, ou simplesmente ao minimalismo dos referentes, reconstrução na desconstrução poética. Rodomel Rododendro é profundidade e extensão comprimidas no espaço e no tempo, sempre redutores da existência, que, fluida, apaga os seus limites. A forma é sempre precária e limitada e nela se perde o devir e o indizível, o conteúdo no seu todo. Pela semiologia vai-se além da língua com as suas tenazes estruturais e os seus códigos, natureza outra que escapa a outra natureza. Para uma explosão poética, como Rodomel Rododendro, procure-se o lado onde melhor se possa surpreendê-la.

II – Modernidade temática em Rodomel Rododendro, com índices em obras anteriores e posteriores do Autor.

Rodomel Rododendro é um poema com cinco andamentos, porque uma toada os conduz e os une, mas também tela de colagens absorvidas por uma superfície tratada à boa maneira impressionista, já apanhada por anúncios de pontilhismo.

O primeiro andamento arranca numa anáfora verbal: " Íamos pela Ribeira (...) Íamos ao encontro da foz (...) Íamos soltos (...) Íamos na onda dos ciprestes (...) Íamos de braço dado (...) Íamos de pé (...).".

Aqui se identifica um topos, da Ribeira à Foz, histórico, lendário, carismático, mítico, de poetas e pintores, de gente com nome e sem nome, que aí se coroaram de rododendro, o louro-rosa dos feitos e das vivências. Neste andamento também se revela a sinuosidade do perfil do Poeta, entre plural e singular, que cede, ou se cede, a uma segunda pessoa, ora no masculino, ora no feminino, numa ambiguidade procurada num jogo de intenções. Cintilações da existência, em que os referentes são absorvidos por símbolos, por metáforas, por imagens, que regurgitam sensações vividas e lhes dilatam o leque das significações, numa coreografia humana, em que pessoas e topos se mesclam mutuamente ao encontro de uma só tonalidade, telúrica e cósmica, onde se descobrem as " correspondências " do simbolismo. Foz, em letra minúscula, solta-se da toponímia para ser chegada, o aqui e o agora da existência, onde ainda cintilam lembranças da inocência, que se querem presenças sentidas: soltos, nus, desprevenidos, peito aberto ao corredor das gaivotas. Mas inocência que foi surpreendida pelos pregos de gelo, pelo delírio, pela fome, pelos cardos, pela angústia, pela solidão, por entre ardências furtivas, na rota das camélias, na sedução do azul, nas secreções da brancura. Da Ribeira à Foz, se ergue, assim, uma descontinuidade, entre uma partida e uma chegada, entre a quimera e a realidade, entre o rodomel e a fuligem. Um genérico para outros detalhes a desenvolver nos outros andamentos, porque os cinco se querem descrição e narração da existência, que aqui já se anuncia sob o estigma do pessimismo: " E recebes, como dádiva, a noite. Um berço para adormecer a angústia e a solenidade ritual do fogo há pouco extinto." (p. 14).

O segundo andamento é um regresso à cor, a carregá-las, avivando a efemeridade da vida nos seus traços, a noite, a morte, o silêncio, e afirmando a sua tragicidade fatalista: " E repetes que todos nós trazemos escondido na algibeira do lado esquerdo um gato preto, outro no forro do casaco, miando no lugar do coração." (p. 17).

No terceiro andamento, a Praça da Liberdade, " visitação das estátuas ". Aqui também o recurso a uma minúscula, em liberdade, tornando esta pessoal, do Poeta, que assim se introduz na simbologia da Praça da Liberdade, com a estátua de D. Pedro IV, corifeu do liberalismo, que encontrou nas gentes do Porto os seus melhores seguidores, deixando-lhes o coração em testamento, depositado na Igreja da Lapa. A Praça, liberta-se do topos num símbolo, que é Poeta, é História, que se encontram, pela liberdade, num plano cósmico: " E livres nós, descalços, outra vez descalços, como no princípio. Quando o zero era um número oblíquo e uno." (p. 23). Por aqui, o Poeta justifica a existência, demarca-se do existencialismo pessimista radical, ao ler a vida através da liberdade cósmica em que Eros se desnuda: " Mel rosado de antigas e árduas colmeias." (p. 24), " O mel das rosas que enfloram a cabeça dos enigmas." (p. 24), " (...) o interior das conchas bivalves (...)" (p. 24) . No título da obra, Rodomel Rododendro, está situado o coração do poema , as guias sonoras de alarme a um desvio da leitura que se exige.

E surge o quarto andamento, que se quer banquete de mel rosado, regresso à infância e à adolescência, a inocência ainda na memória, porque a inocência é a vida, ainda que presença de ausência: " (...) a ferida amável que deixam as lembranças esquecidas nos porões da memória." (p. 30). Numa poética de ressonâncias de leis cósmicas se recorta um NÓS, de vivências privadas, à rebeldia da vigilância social, porque as emoções se querem livres como a linguagem da criação. Não se evocam estampados sociais, de desvios da natureza, mas a natureza, ela mesma, alheia às razões da razão redutora e estranguladora. Privilegiam-se " (...) os bois, as noras, os carvalhos, e a voz rouca do cuco e da poupa, o aroma poroso dos rododendros." (p. 29), " (...) as amoras e os morangos silvestres nas tapadas onde o vento era azul, azul o sangue. Quando eram verdes os lençóis e a noite crescia dentro da manhã. Como crescem as crianças." (p. 31). " Aí, no hálito da poeira cósmica (...) ." (p. 33), " (...) na órbita dos ciclos que geram a inocência." (p. 30), anterior a " (...) todos os dogmas e doutrinas acumuladas nos compêndios por onde te ensinaram a vida." (p. 30).



O quinto andamento surge-nos de supetão numa toada bíblica profética, que nos remete para Génesis 3: 16-19, para as consequências da desobediência de Adão e Eva, expulsão do Paraíso e de todas as suas regalias naturais, que funciona como parábola da expulsão do homem da sua inocência, que o Poeta assinala metaforicamente: " E cortarás, com tuas mãos libertas cortarás o cordão umbilical – não o dourado cordão materno (...) . " (pp. 41– 42) . Para o tempo, ou melhor, tempos, se elegeu o futuro. No futuro, numa repetição temporal anafórica, se anuncia uma epopeia humana, desde o princípio: " Dirás que foi assim desde a primeira aurora boreal ." (p. 40). No futuro se projecta o passado, distante e próximo, registos de vivências, anacronismo temporal que subverte a lei da sucessão no tempo, porque se quer um tempo outro, o da existência, insubmisso a leis, consentidas apenas as de um determinismo oculto que assoma como um fatalismo. Passado, presente e futuro perdem a sua temporalidade no devir existencial. Repare-se no futuro-futuro, apocalíptico: " E assistirás à explosão do século." (p. 39). Repare-se no passado-futuro, referência, talvez, à verónica, com o seu simbolismo: " E enxugarás o rosto numa toalha nem branca nem preta (...) " (p. 40); na possível referência a Abel e Caim, símbolo de posteriores lutas fratricidas em que a humanidade se envolverá: " (...) matarás o irmão (...)." (p. 40). O mesmo se passando com os quadros de Goya, Desastres da Guerra, de 1810-1814, 3 de maio, de 1808: " E assumirás (...) os desastres de Goya (...)." (p. 40). E o mesmo com os Descobrimentos Portugueses, que cremos serem referência: " No vértice mais audacioso disporás uma nau de velas pandas (...) ." (p. 45). Interseccionismos temporais e espaciais, onde transitam símbolos, metáforas, imagens, antíteses, explosões emotivas que se pretendem existência sentida e fluida do Poeta, diárias, de todas as horas: " E à cabeceira terás, como único livro de todas as horas, o livro da vida." (p. 41). Referência aos Livros de Horas medievais, reflexão que agora se exige para os desastres da conduta humana.
Nesta estrutura fluida, que é plano existencial, em que o mundo é sentido e pensado dentro dos limites da existência, o único espaço ao alcance dos dizeres do homem, que assim se assume existencialista, nesta estrutura fluida, dizíamos, os temas flutuam como destroços de um naufrágio que o poeta evita ser total. Um levantamento dar-nos-á o contorno de um existencialismo que nos permitirá a sua perspectiva na modernidade.

Rodomel Rododendro, nas suas emoções e na sua filosofia, é um poema de dimensão total. É da natureza humana que se fala: " (...) falas sempre das abelhas, do mel adolescente escorrendo dos favos loucos da alegria." (pp. 29 e 30). Da natureza humana em correlação com o seu habitat, o telúrico: " Trazíamos ainda nos ouvidos o canto acre e fausto das cigarras. Vinham com ele, amarrados, os bois, as noras, os carvalhos, e a voz rouca do cuco e da poupa, o aroma poroso dos rododendros. Porque é deles que falas onde quer que te dispas, te desnudes, desprevenido e inteiro." (p. 29). Da natureza humana em relação com a Criação, o Cosmos: " Aí, no hálito da poeira cósmica (...)." (p. 33). É com base nesta tripla natureza que as filosofias existencialistas se desenvolvem. O homem está fechado em si, emparedado pelos limites da sua natureza, há uma interrupção de linguagem entre si e o tellus e o Cosmos em que está inserido, apercebendo-se que é a parte do Todo, mas dele não apreendendo a causa e a finalidade profundas, perdendo, assim, o suporte da existência. Reflexões a que não são estranhas as frustrações da nova civilização técnico-industrial da modernidade. O homem encontra-se num aperto, angústia, que gera todos os males da alma, onde se desenvolve e se multiplica uma temática predominantemente de negativos, entre o amor e a morte, que se opõem como o zénite ao nadir, de uma forma radical: " (...) a morte roubava à vida todos os direitos." (p. 42).

A recusa em aceitar a morte como a vida, fenómenos correlativos naturais, produziu desde sempre interpretações e especulações várias, deixando os seus rastos em credos, práticas e teorias, que atravessaram os séculos e os milénios, que se interiorizaram no sentir e na cultura das sociedades, herança ainda visível em certas faixas sociais e nos dizeres da arte, como símbolos, mais que como conceitos. Em Rodomel Rododendro há reflexos desses símbolos milenares, o que integra a obra , também por esse lado, numa atmosfera de tempo total.

Quer no Tarot, quer no cristianismo medieval, a morte simboliza o ciclo da vida e com ele a totalidade. Assim é para Albano Martins: " (...) dizes (...) Que a morte chega ao pôr-do-sol, agarrada aos pulsos, aos joelhos." (p. 17).

A morte, encarada à margem da ciência, transcende-nos: " Dizias que nada é deste mundo – o amor, a morte, a solidão." (p. 13). Apanágio dos existencialistas que, ainda que a ciência a explique, a deixará sempre inexplicável, porque se opõe à vida, retirando-lhe o seu sentido, tornando-a contingente, acidental, efémera, condenada na sua esperança ao vazio, ao mistério. Enquanto negação da existência, permanecerá sempre esotérica, indecifrável: " E dizes que há para tudo um lado invisível, secreto (...) uma oculta e primordial razão, uma ordem na desordem (...) que nada é decifrável a esta luz e a vida é uma torre sem ameias virada há séculos, ou desde sempre, para o mesmo precipício. Que todos os indícios, e os oráculos, e os ventos, sopram nessa direcção." (p. 24). Repare-se no fatalismo, no mistério encarado como "precipício", a lembrar a alegoria do inferno medieval-cristão e a alegoria da morte na Bretanha. Materialização que já aparece personificada entre os gregos, com Tânato, para eles masculino, entre os romanos, com Mors, para eles feminino, identificado com sono, ao lado de sonho, Hipno, ambos filhos da noite, um dos símbolos da morte, que Albano Martins utiliza: " (...) a noite vai cair sobre nós, vermelha e táctil." (p. 14) ; " E vamos pela noite dentro (...)." (p. 18); " Que também a noite é solene, dizes." (p. 17); " Um berço para adormecer a angústia e a solenidade ritual do fogo há pouco extinto." (p. 14). E à morte se associa outro símbolo, o preto, ausência de todas as cores: " (...) trazemos escondido na algibeira do lado esquerdo um gato preto (...)." (p. 17). E numa narrativa de símbolos o silêncio também designa a morte: " É isto que vês. O resto é silêncio (...)." (p. 18); " É a voz do silêncio amordaçado, fechado à chave nos armários onde se escondem os rituais sombrios, com seus gansos de morte (...)." (p. 44); " E nada mais dirás. Que tudo, como ouviste, é silêncio." (p. 46) .

Noutras obras do autor é assinalada esta presença escatológica a marcar todo um percurso de preocupações existenciais. Em Os Patamares da Memória (p. 10), a morte é uma certeza presente na existência: " De há muito / sabes que não há / para o sono outro vício, / outra rasura para a morte.". Em O Mesmo Nome (p. 23), nada há para além da morte, lâmina presente na existência: " Não haverá futuro – e haverá / somente esta lâmina / de quartzo lacerando / a carne amarrotada.". Em Coração de Bússola (p. 35), a morte é um espectro na existência , que nós próprios alimentamos sem abstenção possível: " (...) a nossa vida de operários fúnebres / conduzindo a morte como um veículo (...).". Em Tempo e Memória, in Vocação do Silêncio (p. 146), na construção da existência se constrói a sua destruição, o sem-sentido, mais sentido, com sentido unívoco, que conduz a um niilismo radical, sem o socorro de uma religião ou de uma ciência: " Onde / com minúcia / a morte / preparas // uma arma / contra / ti / disparas.". Na mesma obra (p. 150), a morte é uma viagem sem itinerário, sem roteiro, sem uma palavra acessível, sem enquadramento, para sempre: " Para a viagem / das flores / sem moldura. // Para o tempo / sem cor / e sem regresso.". Também na mesma obra (p. 153), no corpo da existência, " crisálida no tempo " , sob o augúrio da sombra e do silêncio, ausência da luz e da palavra que esclareçam, a morte, objectivada como uma entidade própria que nos é alheia, tem a sua gestação no sangue até ao seu parto: " Crisálida no tempo, a tua vida / perfumou-se de sombra e de silêncio. / (...) e no teu sangue, pálidas, / as espigas da morte amadurecem.". Em Escrito a Vermelho (p. 21), a existência é uma angústia entre a vida e a morte, inseparáveis, como o fio da lâmina e o seu aço: " E é então que a vida / e a morte convivem / sob o mesmo tecto.". Em As Vogais Aliterantes, in Vocação do Silêncio (p. 315), a morte é uma certeza sem alternativa: " Da morte / e seus juízos imutáveis / não há recurso.". Em Inéditos e Dispersos, in Vocação do Silêncio (p. 107), a morte é pressentida, está presente na consciência no percurso da existência: " Descem as pálpebras sobre / o sono vigilante. // É preciso, amor, / dar um nome a esse instante.". Em Aproximação ao real, in Vocação do Silêncio (p. 196) , a vida é enganosa, aparentemente duradoura, porque a morte chega rapidamente: " Lento é o rio, rá / pida a sua sombra.". E, por isso, o Poeta, na linha do carpe diem de alguns existencialistas, apela a profiter la vie: " Bebe em todas as fontes, se puderes. / Só terás remorsos / do que possas fazer e o não fizeres.", Secura Verde e outros poemas, in Vocação do Silêncio (p. 46).

Decorrentes da morte, sem saída, e dos problemas amontoados pela modernidade, sem saída, surgem os temas da negatividade, na sua forma mais acabada e mais sentida, já anunciados pelos gregos, que assim se demarcaram de civilizações orientais, mas ainda do foro intelectual de uma elite. Neles já encontrámos a Sorte (Moro), o Sono (Hipno), o sarcasmo (Momo), o engano (Apaté), a velhice (Geras), a discórdia (Éris) e as filhas do Entardecer (Hespérides) , todos descendentes da noite. A estes a modernidade acrescentará outros temas, criando um painel existencial mais extenso e mais vivo, exposto por artistas e filósofos, mas vivido pelas classes desprotegidas nas suas lutas diárias pela subsistência, ainda que ao lado das cogitações intelectuais. Estamos na modernidade, e nela procuramos o sentido para Rodomel Rododendro e para as marcas , neste, da restante obra do Autor.

A falência da existência, sem partilha possível, também se nomeia solidão: " Há um rio (...) Navegá-lo-ás solitário, porque solitárias são as navegações humanas (...)." (p. 43).

A vida é uma luta, um combate de opostos que desenvolve um estado de angústia: " (...) vampiros e duendes, que te oferecem numa taça o dia e na outra a cicuta do sangue bebido durante a noite no cálice das tuas veias." (p. 42).

A esperança, a última, a escatológica, antecipa-se derrotada: " (...) te acenavam com uma terra prometida onde, soberana, a morte roubava à vida todos os direitos." (p. 42).

O vazio apodera-se dos passos existenciais: " (...) podes volver os passos, / subir a escada erma / e plantar / uma flor no vazio." (Os Remos Escaldantes, in Vocação do Silêncio, p. 271).

E consequentemente o nada: " Há um momento em que o espelho / recusa a imagem. Percebes, / então, que o vazio / é contrário à luz. Que o nada / e o salitre são / a outra face da transparência." (Escrito a Vermelho, p. 49). Ou na p. 77: " Sabes agora / o que é uma ilha : um espaço / onde não cabem / a solidão e o medo – espaços / maiores do que a terra / e que todos os astros. Como / se a vida não fosse, / como alguém disse / e tu sabes, / um risco. E como / se o arame / em que executas / o teu número não pudesse / a qualquer momento / romper-se / e tu entrares / no vazio. E esse / é o outro nome / do fosso / de que falavas há pouco. ".

O símbolo funciona em Albano Martins como veículo temático. O vermelho, símbolo do princípio da vida, anda associado ao sangue e ao fogo.

Por um interseccionismo telúrico se descobre a vitalidade do vermelho: " Íamos (...) entre ardências furtivas, na rota das camélias – brancas, vermelhas (...) soltos (...) ." (p. 13); "Estão longe os redondéis, as eiras de trigo vermelho (...). " (p. 39) ; " (...) a noite vai cair sobre nós, vermelha e táctil." ; " (...) vermelhas, as algas." (p. 14), citações de Rodomel Rododendro. O sangue é o veículo da vida e das paixões, o seu elemento corpóreo. Em Rodomel Rododendro, temos: telúrico, " Os tordos que adormeciam sobre as folhas sangrentas dos castanheiros (...) ." (p. 39); mortífero, envenenado pela vida que assoma durante a noite, " (...) numa taça o dia e na outra a cicuta do sangue bebido durante a noite (...)." (p. 42) ; elemento corpóreo sujeito às exigências da vida, ao sacrifício que esta exige, " (...) sementes adubadas com o suor do teu sangue." (p. 44). Mas também declaradamente erótico, em Poemas do Retorno (p. 2): " Vê como é lácteo o sangue. Espuma e açúcar. Embriaguez solar, transparente.". O sangue, símbolo desde os povos mais remotos, com expressões cerimoniais diversas, desde o sacrifício do bode, na Grécia, ao sacrifício de Cristo, na Palestina, entre outras manifestações de holocausto de animais ou pessoas, noutros povos, pelo seu profundo significado e enraizamento, tornou-se um estereótipo da cultura e, como tal, assoma na arte. Mas a Modernidade, face aos seus desmandos, recuperou-o como um símbolo vivo, e tornou-se bandeira com toda a carga dos seus significados. Em Albano Martins não é um mero símbolo estereotipado, ele aparece com toda a carga significativa da Modernidade: " Basta que se saiba / que foi com o sangue / que sempre o escreveste. E bastará, / por isso, que leiam / os teus versos. Porque / em todos eles / está escrito a vermelho." (Escrito a Vermelho, p. 93) . Sangue e vermelho são enquadrados no plano da existência, remetem para um existencialismo e não para uma mera expressão cultural.

O fogo , na sua gama simbólica, diurno, é solar, macho, acção, ardor e beleza, força impulsiva e generosa, juventude, saúde, riqueza de Eros livre e triunfante. Nocturno, é fêmea, secreto, mistério da vida, incita à vigilância, inquieta. E é por excelência o símbolo do acto sexual, cuja origem, segundo Gaston Bachelard, se poderá ver na primitiva fricção de duas pedras por um movimento de vaivém. Em Rodomel Rododendro, ele recorta-se predominantemente erótico: " Distante mora o fósforo dos incêndios." (p. 31) ; " (...) o fogo que te alimenta e devora." (p. 32); " (...) com receio das combustões, da faísca luminosa, incendiária (...)." (p. 33) ; " (...) descolorida como o fumo dos incêndios (...)." (p. 40); " Tu, meu óleo e minha chama, minha unção derradeira (...)." (p. 45); " Seu nome de fogo: hidrângea." (p. 46). Em Escrito a vermelho (p. 41), o fogo aparece associado ao vermelho, como força vital, existencial: " Um gesto pode ser / um simulacro apenas. / Como quando arrefece / e acendes a lareira / para dar sangue às brasas. / No halo / da chama há sempre / uma voz que cintila / e te agradece."

O Eros em Rodomel Rododendro, assim como nas outras obras do Autor, adquire uma pertinência requerida por um existencialismo pessoal que se vai declarando. Toda a obra de Albano Martins é uma tensão entre a vida e a morte: " (...) na substância palpável (...) construo a minha casa, / habito o espaço inteiro / disponível para a vida, / necessário para a morte." (Em Tempo e Memória, in Vocação do Silêncio, p. 134). A morte é estranha à vida, tira-lhe o sentido da sua natureza lúdica, anunciando-lhe um limite. Mas a vida, apesar disso, não se anula, não se nega, pelo contrário, afirma-se no seu esplendor, ainda que contraste, aumentando essa tensão. E é no Eros que encontramos a motricidade da vida, ora marcadamente carnal, sexual, ora abrangente, telúrico, cósmico, animicamente sublimado.

Esta última leitura leva-nos ao conceito do Platão do Banquete e do Fedro, em que o Eros é o amor a tudo quanto é belo, a beleza física, a beleza das acções, a beleza da sabedoria e a própria beleza em si mesma, caminhos de encontros com o transcendental: " A verdadeira beleza / está no que o homem tem de semelhante / com a natureza." (Secura Verde, in Vocação do Silêncio, p.51); " (...) mantenho com os seres e as coisas uma antiga e estreita relação (...) As palavras que nomeiam as coisas, os seres, (...) tenho-as como verdadeiros corpos onde se acumula ou concentra (...) uma energia erótica inesgotável." (Circunlóquios, p.18); " Levo comigo as árvores, / os lagos, / o vento – as suas cestas / de merenda e volúpia." (As Vogais Aliterantes, in Vocação do Silêncio, p. 319); " Perplexas / guitarras acordam e suspendem / a opressa respiração do tempo, / o hálito nocturno, o ritmo / do universo fundido em nossas mãos." (Em Tempo e Memória, in Vocação do Silêncio, p. 132); " Para aprender, apreender ou prender os fios que nos ligam ao cosmos. Como um novo ou sempre renovado génesis, uma espécie de arco da aliança, um secreto conúbio entre a terra e o céu, eis o que a poesia é na sua essência mais profunda. " (Circunlóquios, p.21) ; " Do mais fundo da noite / chega até nós, vibrante, / um frémito de rios subterrâneos / que pedem uma voz para cantar." (Coração de Bússola, p. 32) . Desta concepção de Eros universal, a inocência, o regresso às leis naturais em que os preconceitos se anulam, em que não há bem e mal morais, mas vidas: " Floresta / virgem. A carne, / o sexo vegetal / ainda não possuído / pelo machado do homem." (A Voz do Chorinho ou os Apelos da Memória, p. 68) ; "Pertenço a esta / geografia, ao lume branco / da resina, ao gume / do arado. A minha casa / é esta : um leito / de estevas e uma rosa / de caruma abrindo / no tecto do orvalho." (O Mesmo Nome, p. 11) ; " Não permitir que a voz / corrompa os lábios : aderir / somente ao desejo." (Sob os Limos, in Vocação do Silêncio, p. 215).

Estes e outros lugares configurarão um perfil do Eros que se aproxima da teoria de Platão, mas outros lugares nos apontam para Freud, carne e sexo declarados, mais circunscrito ao corpo, lugar de revelação, ou de aparição, da existência: " Um deus e a crista / duma onda / crucificados / no teu sexo." (Vertical o Desejo, in Vocação do Silêncio, p. 295) ; " Em nós o inalterável / esplendor da carne." (Vertical o Desejo, in Vocação do Silêncio, p. 301) ; " (...) um corpo / à semelhança e imagem / do desejo." (Uma colina para os lábios, p. 11) ; " (...) lagarto deslizando / no espaldar dos dedos. Falo / duma febre ferida / nos patamares da memória." (Os Patamares da Memória, p. 8) ; " A cabeça da lua / entre as coxas. / O sexo do luar. " (Entre a Cicuta e o Mosto, p. 22); " No centro da volúpia, como essência / e forma, como adorno, / contorno e cerne , é que o voo / se fixa (...) (A Margem do Azul, p. 17) ; " O rio / oval. Em suas / margens a carnuda / floração dos corpos, a / plácida, incorrupta / nudez. " (A Margem do Azul , p. 37). E em Rodomel Rododendro se sucedem palavras e expressões para uma leitura semiológica, em signos, símbolos, metáforas e imagens: " Nus, incendiando as margens" , " secreções de brancura " , "nuvem grávida de sementes " , " flor sacralizada da alegria " , " ardências furtivas " , " cama " , " leite " , " percussão sanguínea " , ritual do fogo " , " lábios " , " ventre " , " conchas bivalves " , " te dispas " , " te desnudes " , "ferida amável " , "a urgência e a aspereza do aguilhão " , " a enlaçada vertigem dos cumes " , " verdes os lençóis " , " fósforo dos incêndios " , " o fogo que te alimenta e devora " , " mãos de Afrodite " , " ardidas vivências " , " violências antigas " , "almofada do feno " , " o fruto da embriaguez " , " concha e leito das tuas mãos " , "dedos " , "peito " , " lençol puríssimo e bálsamo, e turíbulo, aurora de espumas " , "cortiço " , " favos " , "mel " , " abelhas " , " óleo " . Por esta linha se declaram abertamente os títulos de algumas obras: Rodomel Rododendro, Uma Colina para os Lábios, Escrito a vermelho, Vertical o Desejo.

Qualquer que seja o relevo significativo que possamos encontrar na obra de Albano Martins, o Eros pressupões sempre três círculos circuncêntricos : humano, telúrico, cósmico. Que tanto se anulam num todo, submissos às mesmas leis, como se recortam, também, cada um em seu plano. Por aqui o humano se elege como lugar primeiro, mais sentido, porque ele é o espaço da existência, ainda que com uma janela , mas de vidraça fosca. O sonho, Ideia, Arquétipo, presença não explicada, transcendental, estranha, é chave de "correspondências": "Como em nenhum outro sítio, a terra, aqui, é feminina. De fartos seios agressivos que transbordam para a água , seu leite imaturo. // Masculino é o sonho que a transforma, o sémen em seu ventre diariamente injectado pela mão e pelo cérebro dos homens." (A Voz do Chorinho ou os Apelos da Memória, p. 23) . Apesar da percepção telúrica, ou cósmica, o homem está fechado em si, a sua relação com o todo é de mistério: " Escrever é isto: interrogar o mistério, desvendar os enigmas que a existência nos coloca (...) . " (Circunlóquios, p. 22) ; " Sou um navio preso / à sua própria amurada." (Secura Verde, in Vocação do Silêncio, p. 48) ; " É meu o horóscopo, são meus / os signos constelados, esta âncora suspensa / dos lábios divididos." (O Mesmo Nome, p. 9) ; " Dizes que tudo é irreal e não há espelhos que nos revelem a face verdadeira (...) ." (Rodomel Rododendro, p. 14).



III – Rodomel Rododendro, uma filosofia existencialista, que se afirma pessoal entre outros existencialismos.
Quaisquer que sejam as deambulações na sua obra, Albano Martins permanece sempre numa atitude existencial. Fazendo o caminho inverso de Descartes, dele se pode dizer: existo, logo penso. A existência é o ponto de partida, lugar de encontro, ponto de chegada, mas de malas vazias, pois para além da existência tudo lhe é inacessível. Como diz, é " um navio preso / à sua própria amurada", é seu o " horóscopo", seus, " os signos constelados", tudo o mais é " irreal " . Nesta postura gnoseológica, ele veste a farda dos existencialistas da modernidade. É um grito de partilha de um coro, mas espontâneo e pessoal, um pulsar da vida sem pretensões a uma filosofia que como tal se declare nas suas expressões de sentires poéticos, avulsos, desordenados como o devir psico-somático, convergência de todos os estímulos, sem obediência a leis de espaço ou de tempo ou quaisquer outras. O seu vínculo a uma filosofia é-lhe exterior, é tarefa do leitor da sua obra, que nela procure uma síntese, um levantamento temático, uma conexão de coerências, um sentido que se defina. O existencialismo, enquanto manifestação de sentires humanos, é de todos os tempos, mas como corrente filosófica, preocupação sistemática levada até à exaustão, é um produto intelectual da época industrializada.

O Desespero Humano (1844), do teólogo dinamarquês Sören Kierkegaard, é a obra apontada como referência do início do existencialismo, que se modela mais vincadamente a partir da Segunda Guerra Mundial, com Martin Heidegger, Karl Jasper, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Gabriel Marcel, Albert Camus, Samuel Beckett, Franz Kafka e Jacques Maritain, entre outros.

Para Sören Kierkegaard, a angústia é o eixo de rotações da existência, o que se explicita numa abordagem de Rafael Gambra : " A filosofia daquela época correspondia rigorosamente, segundo o filósofo dinamarquês, ao ambiente cultural que imperava: a burguesia egoísta e preguiçosa, que vivia satisfeita num mundo oficialmente perfeito e livre, que ignorava deliberadamente os trágicos fenómenos do pauperismo, do desenraizamento dos humildes do seu meio, da escravidão mecânica, que se iam gerando nas suas costas, apenas uma palavra voltava, uma e outra vez, à mente de Kierkegaard: Existência.".

Mas é o alemão Heidegger que dá mais substância ao conceito, lhe traça os seus contornos. A existência reduz-se ao Dasein, a única presença em nós, perceptível , perdidos do nada, agarrados à angústia, à mercê da morte. A existência sem sentido, desgarrada do universo inacessível à sua verdade. Do homem fechado em si, no Dasein, decorre o existencialismo do desespero, niilista, trágico.

A esta construção fechada, alguns filósofos franceses abriram uma janela, a procurar alguma luz para a existência, que lhe desse um sentido, ainda que imediato e medido pelo tempo, com um objectivo pragmático, profiter la vie.

Para Albert Camus, " há nos homens mais coisas para admirar que coisas para desesperar." Se, em L'Étranger (1942) o herói se conforma, contentando-se com a liberdade de espírito, em La Peste (1947), o herói actua, procura fazer alguma coisa perante a epidemia : " todos os homens que, não podendo ser santos e que recusam admitir os pesadelos, se esforcem, pelo menos, por serem médicos ". Camus procura tirar partido do que é disponível na existência, toda a sua obra é nimbada pelo sexo, segundo ele, " as verdades da carne ".

E Sartre prosseguirá, também, na linha da natureza humana, com exclusividade total, marcadamente em L'Être et le Néant (1943). Em La Nausée (1938), denuncia todo o suporte existencial tradicional, preconceitos, ideias, credos, como falsidades, pois a existência é em si mesma a única realidade herdada, a única legisladora dos comportamentos. E daqui parte para um novo humanismo, de âmbito social, numa nova perspectiva, em que o profiter la vie não se perca , como razão da existência.

Esta é a atmosfera existencial em seus limites, trágica, que atravessa toda a Modernidade, visão não partilhada pela maioria dos intelectuais, que, mesmo em oposição, em busca de outros caminhos, não deixam de ser testemunhas dos mesmos problemas que angustiam o homem, pois não se pode viver insensível e inocente sob o mesmo tecto histórico. Todas as tradições foram postas em causa. Assistiu-se e assiste-se ao desmoronamento de todas as referências, em movimentos que surgem por todo o lado, como os " Beatniks " e os "Hippies".

Albano Martins não é um filósofo, não participa de nenhum movimento, nem sequer tem uma obra literária de tese, como Camus, Sartre ou Vergílio Ferreira. É um Poeta, sem objectivos filosóficos ou teóricos, mas produto integral da sua época, vivo como a vida, vermelho como o sangue, sem os sentimentalismos contemplativos, mas com todos os sentimentos que decorrem de uma sociedade lacerada, à deriva, mas bem agarrado a uma tábua dos destroços de um barco naufragado. Sem ser filósofo ou teórico, na sua procura poética, na sua perseguição ao belo, ele vai filosofando sem o dizer e sem o pretender, ao percorrer os golpes da carne e da alma, de prazeres e dores, os seus, decalques da Modernidade, pelo sentir pessoal, pela vivência, não por seguidismo, ainda que nos conteúdos seja um epígono da história. Albano Martins não é um filósofo, mas a sua poética é uma filosofia, sem a qual a arte perde o seu suporte.



IV – Aparição de Vergílio Ferreira e Rodomel Rododendro de Albano Martins.
A problemática da existência em toda a obra de Albano Martins está condensada em Rodomel Rododendro. Não é uma narrativa, mas narra. Não é um sistema filosófico, mas é uma filosofia de carne viva, que por si, em si se descreve. Sem que haja outra intenção que não seja a do sentir. É uma obra paradigmática do existencialismo na poesia. Rodomel Rododendro está para a poesia como Aparição de Vergílio Ferreira está para a prosa. Referências, seguramente entre outras, mas talvez as mais marcantes, as que melhor se recortaram.

Pelo exposto no capítulo anterior, pelo que se foi dizendo nos outros capítulos, o existencialismo de Albano Martins tem uma cunhagem própria, não alinhada, é uma explosão de sentires que se projectam em reflexões, uma espontaneidade da existência, procurada, que lhe retira um certo abstraccionismo da filosofia do pensamento, descarnada, preocupada com as ideias, ainda que exemplificadas. Demarca-se do Dasein trágico de Heidegger, linha pouco suavizada na Aparição, da secura de Sartre e de Camus , ainda que mais próximo, pelo lado do profiter la vie. Pela diferença ele se promove a um existencialismo mais autêntico, porque o existencialismo, segundo as suas premissas, não deve ser sistema, abstracção, generalização, é pessoal, porque é vivência pessoal, sentir incomunicável, com os outros e com o universo, desamparo trágico. Nunca o mito de Prometeu se tornou tanto realidade como na época moderna. Albano Martins faz as suas despesas à sua própria custa, a sua gestão, enfrentando os problemas da nova era e a ameaça inexorável da morte com o carpe diem, que não passa pela indiferença pelos outros, nem pelo seu atropelo, mas pelo prazer que se pode extrair do corpo e da alma, onde a luta é só sua, confinada ao que lhe é disponível. Abandonado num universo sem deus, ou a um deus que é o universo que com ele não dialoga em linguagem audível, não se rende a um desespero, a uma angústia, a um pessimismo radical, a um niilismo, a mirrar num deserto de mãos atadas. Constrói o seu oásis com as palmeiras do sangue, alimentando-se das suas tâmaras de sabores afrodisíacos.

Por esta manifestação do ser e do estar, Rodomel Rododendro se demarca da Aparição, romance bem conseguido, genericamente, mas com a secura que é evidente e bem sintetizada no prefácio: " Mas esta simples verdade de que estou vivo, um hábito em evidência, esta certeza fulgurante de que ilumino o mundo, me vem de dentro, me implanta na vida necessariamente, esta totalização de mim próprio que não deixa ver os meus olhos, pensar o meu pensamento, porque ela é os meus olhos e esse meu pensamento, esta verdade que me queima quando vejo o absurdo da morte, se pretendo segurá-la em minhas mãos. // Só há um problema para a vida, saber a minha condição. // Ah, ter a evidência ácida do milagre que sou ." (Aparição, Vergílio Ferreira, 48ª edição, Bertrand Editora, 1999)

De outro jeito encara Albano Martins a existência: " Dorme. Sobre ti vela um dossel tecido de flores de rododendro. Descem ainda das colinas – repara – as abelhas. Há um cortiço em cada gesto, em cada palavra. Poeira de abelhas, os teus olhos, os teus gestos. A boca. Dorme. " (Rodomel Rododendro, p. 46) .



Edições consultadas da obra de Albano Martins


  • Coração de Bússola, 1ª ed., Edição do Autor, Col. Daimon, Évora, 1967.

  • Inconcretos Domínios, 1ª ed., Edições Nova Renascença, Porto, 1980.

  • A Margem do Azul, , 1ª ed. , Edição do Autor, Porto, 1982.

  • Vertical el Deseo, ed. bilingue, suplemento da revista Palimpsesto, Carmona (Sevilha), 1990.

  • Poemas do Retorno, 1ª ed. ,Edição C.C.A.M., Col. Cronos, Viana do Castelo, 1987.

  • A Voz do Chorinho ou os Apelos da Memória, 1ª ed. , Editorial Caminho, Col.. Caminho da Poesia, Lisboa, 1987.

  • Vocação do Silêncio (1950 – 1985), 1ª ed. , Edição IN-CM, Col. Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa 1990.

  • Os Patamares da Memória, 1ª ed. , Editora Límia, Col. Ícone, Viana do Castelo, 1989.

  • Rodomel Rododendro, 1ª ed. , Quetzal Editores, Lisboa, 1989.

  • Entre a Cicuta e o Mosto, 1ª ed. Editora Átrio, Col. O Lugar da Pirâmide, Lisboa, 1992.

  • Uma Colina para os Lábios, 1ª ed. , Edições Afrontamento, Col. Poesia / 24, Porto, 1993.

  • Com as Flores do Salgueiro, ed. trilingue, 1ª ed. , Edições Universidade Fernando Pessoa, Porto, 1998.

  • O Mesmo Nome, 1ª ed. , Editora Campo das Letras, Col. Campo da Poesia, Porto, 1996.

  • A Voz do Olhar, 1ª ed. , Edições Universidade Fernando Pessoa, Porto, 1998.

  • O Espaço Partilhado, 1ª ed. , Editora Campo das Letras, Col. Instantes de Leitura, Porto, 1998.

  • Escrito a Vermelho, 1ª ed. , Editora Campo das Letras, Col. Campo da Poesia, Porto, 1999.

  • Circunlóquios, Edições Universidade Fernando Pessoa, Porto, 2000.


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