Porque Não Sou Cristão



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Apresenta

Porque Não Sou Cristão” e outros ensaios sobre religião e assuntos correlatos – Bertrand Russel - 1957

Com um apêndice sobre “O Caso Bertrand Russel”



























































































































































































































INTRODUÇÃO

Bertrand Russell tem sido, durante toda a sua vida, um escritor fecundo, e alguns de seus melhores trabalhos se encontram em pequenos opúsculos e em artigos publicados em diversos periódicos. Isto é particularmente verdade quanto ao que se refere às suas discussões acerca da religião, muitas das quais pouco conhecidas, fora de certos círculos racionalistas. Neste volume, reuni vários desses ensaios sobre religião, bem como outros escritos, entre eles “A Liberdade e os Colleges” e “A Nossa Ética Sexual”, temas que ainda hoje apresentam grande interesse.

Embora sumamente acatado pelas suas contribuições a assuntos puramente abstratos, tais como a lógica e a teoria do conhecimento, pode-se bem supor que Russell será igualmente lembrado, em anos vindouros, como um dos maiores heréticos em questões de moral e de religião. Jamais foi filósofo puramente técnico. Interessou-se sempre profundamente pelas questões fundamentais a que as religiões deram suas respectivas respostas: questões relativas ao lugar do homem no universo e à vida virtuosa. Tratou dessas questões com a penetração, a graça e a eloqüência de sempre, exprimindo-se na mesma prosa cintilante que tomou famosos os seus outros trabalhos. Tais qualidades transformam, talvez, os ensaios incluídos neste livro na mais comovente e encantadora exposição do ponto de vista do livre-pensador, desde os tempos de Hume e Voltaire.

Um livro de Bertrand Russell sobre religião seria, em qualquer ocasião, digno de ser publicado. No momento atual, em que presenciamos uma campanha em favor do renascimento da religião, efetuada com todas as facilidades proporcionadas pelas modernas técnicas de propaganda, uma nova exposição do caso dos incrédulos parece-nos particularmente desejável. De todos os lados e em todos os níveis intelectuais, altos, baixos e médios, vimos sendo bombardeados, há muitos anos, pela propaganda ideológica. A revista Life assegura-nos, num de seus editoriais, que, “salvo quanto ao que se refere a materialistas e fundamentalistas dogmáticos”, a guerra entre a evolução e a fé cristã “já terminou há muitos anos”, e que a própria ciência... “desaprova a idéia de que o universo, a vida ou o homem pudessem haver evoluído por puro acaso”. O Prof. Toynbee, um de seus mais dignos apologistas, diz-nos que “não podemos enfrentar o desafio comunista numa base secular”. Norman Vincent Peale, Monsenhor Sheen e outros professores de psiquiatria religiosa, exaltam as bênçãos da fé em colunas de jornais lidas por milhões de pessoas, em livros que são best-sellers e em programas semanais de rádio e televisão de âmbito nacional. Políticos de todos os partidos, muitos dos quais não se distinguiam de modo algum por sua piedade antes de concorrer a cargos públicos, fazem questão de ser conhecidos como zelosos freqüentadores de igreja e não deixam jamais de referir-se a Deus em seus eruditos discursos. Fora das salas de aula dos melhores colégios, o lado negativo desta questão quase nunca é apresentado.

Um livro como este, com sua inflexível afirmação do ponto de vista secularista, é hoje tanto mais oportuno quanto é verdade que a ofensiva religiosa não se restringiu à propaganda em grande escala. Nos Estados Unidos, assumiu também a forma de numerosas tentativas, muitas das quais bem sucedidas, no sentido de solapar a separação existente entre a Igreja e o Estado, como o prevê a Constituição. Tais tentativas são em número demasiado elevado para que aqui as pormenorizemos; mas talvez duas ou três ilustrações indiquem suficientemente tal tendência perturbadora, que, caso não seja refreada, converterá em cidadãos de segunda classe aqueles que se opõem à religião tradicional. Há poucos meses, por exemplo, um subcomitê do Congresso incluiu, numa Resolução Conjunta, a surpreendente proposição de que a “lealdade a Deus” seja qualificação essencial para um melhor serviço governamental. “O serviço de qualquer pessoa, em qualquer capacidade, no governo ou sob as ordens do mesmo”, afirmam, oficialmente, os legisladores, “deveria caracterizar-se por devoção a Deus”. Esta resolução não é ainda lei, mas poderá vir a sê-lo dentro em pouco, se não encontrar enérgica oposição. Outra resolução, fazendo de “In God We Trust” o lema nacional dos Estados Unidos, foi aprovada por ambas as Câmaras e hoje vigora no país por força de lei. O Prof. George Axtelle, da Universidade de Nova York, um dos poucos críticos a abordar sem rebuços esses e outros atos semelhantes, referiu-se muito justamente a eles, ao depor perante um comitê do Senado, como constituindo “diminutas, mas significativas erosões” no princípio de separação entre a Igreja e o Estado.

As tentativas no sentido de introduzir a religião onde a Constituição expressamente o proíbe, não se limitam, de modo algum, apenas à legislação federal. Assim, na cidade de Nova York, para tomarmos apenas um exemplo particularmente manifesto, a Junta de Superintendentes do Conselho de Educação preparou, em 1952, um “Guiding Statement for Supervisors and Teachers”, em que afirmava, sem meias palavras, que “as escolas públicas deviam encorajar a crença em Deus, reconhecendo o simples fato de que o nosso país é uma nação religiosa”, e, ainda, que as escolas públicas “identificassem Deus como sendo a origem suprema da lei natural e moral”. Se tal declaração houvesse sido adotada, dificilmente qualquer uma das matérias do curriculum escolar da cidade de Nova York teria permanecido livre de intrusão teológica. Mesmo estudos aparentemente seculares, como ciência e matemática, deveriam ser ensinados numa linguagem sugestivamente rica de significado religioso. “Cientistas e matemáticos”, afirmava a declaração, “concebem o universo como sendo um lugar predizível, bem ordenado, lógico. Suas considerações sobre a vastidão e o esplendor dos céus, as maravilhas do corpo e do espírito humano, a beleza da natureza, o mistério da fotossíntese, a estrutura matemática do universo ou a idéia de infinito,. não podem senão levar à humildade ante a obra de Deus”. Não nos resta senão dizer: “Quando penso nos Céus, obra de Tuas Mãos!”. Nem sequer um assunto tão inofensivo como as “Artes Industriais” foi deixado em paz. “Nas artes industriais”, afirmaram os filósofos da Junta de Superintendentes, “a observação das maravilhas da composição dos metais, o trigo e a beleza das matas, as utilizações da eletricidade e as propriedades características dos materiais empregados suscitam, invariavelmente, reflexões quanto ao planejamento e organização do mundo natural, bem como acerca da maravilhosa obra de um Poder Supremo”. Esse relatório despertou tal indignação por parte de grupos cívicos e de vários círculos religiosos mais liberais, que se tomou impossível a sua adoção pelo Conselho de Educação. Uma versão modificada, na qual foram eliminados os trechos mais contestáveis. foi, posteriormente, adotada. Todavia, mesmo a versão revista contém linguagem teológica suficiente para fazer com que um secularista estremeça – e é de esperar-se que a sua constitucionalidade seja impugnada perante os tribunais.

É de surpreender que tenha havido tão pouca oposição contra os abusos praticados a favor de interesses eclesiásticos. Uma das razões para isso parece ser a crença generalizada de que a religião, hoje em dia, é suave e tolerante e que as perseguições são coisa do passado. Esta é uma ilusão perigosa. Embora muitos líderes religiosos sejam, indubitavelmente, amigos verdadeiros da liberdade e da tolerância e, ainda, partidários comprovados da separação entre a Igreja e o Estado, há, infelizmente, muitos outros que, se pudessem, se entregariam a perseguições e que, de fato, o fazem, quando podem.

Na Grã-Bretanha, a situação é um tanto diferente. Há igrejas estabelecidas e a instrução religiosa é legalmente sancionada em todas as escolas públicas. Não obstante, a índole do país é muito mais tolerante e os homens, em sua vida pública, hesitam menos em ser abertamente conhecidos como incrédulos. Mas também na Grã-Bretanha a propaganda vulgar a favor da religião é desabusada, e os grupos religiosos mais agressivos estão fazendo todo o possível para impedir que os livre-pensadores exponham as suas razões. O recente relatório Beveridge, por exemplo, recomendou que a B.B.C. desse aos representantes do ponto de vista racionalista uma oportunidade de expor suas opiniões. A B.B.C. aceitou oficialmente essa recomendação, mas quase nada fez para pô-la em prática. As palestras de Margaret Knight, sobre “Moral Sem Religião”, foram apenas uma das pouquíssimas tentativas no sentido de apresentar a opinião dos incrédulos sobre tão importante tema. As palestras de Mrs. Knight despertaram violentas explosões de indignação por parte de toda a sorte de fanáticos, os quais, parece, assustaram tanto a B.B.C. a ponto de fazer com que a mesma voltasse à sua antiga subserviência ante interesses religiosos.

A fim de ajudar a dissipar a complacência sobre este assunto, incluí neste livro, como apêndice, amplo relato da maneira pela qual Bertrand Russell foi impedido de tomar-se professor de filosofia do Colégio da Cidade de Nova York. Os fatos referentes a esse caso merecem ser mais amplamente conhecidos, quando mais não seja para mostrar as incríveis deturpações e os abusos de poder que os fanáticos estão dispostos a empregar quando se dispõem a derrotar um inimigo. As pessoas que conseguiram anular a designação de Russell são as mesmas que agora destruiriam de bom grado o caráter secular dos Estados Unidos. Esses indivíduos e os seus sósias britânicos são hoje, de um modo geral, mais poderosos do que em 1940.

O caso do “City College” deveria ser exposto pormenorizadamente, ao menos como simples ato de justiça para com Bertrand Russell, que, na ocasião, teve sua reputação perversamente denegrida, não só pelo juiz encarregado da petição, como por grande parte da imprensa. As opiniões e a conduta de Russell foram alvo de desenfreadas deturpações, e as pessoas que não estavam familiarizadas com os seus livros devem ter tido uma impressão inteiramente errônea quanto às suas verdadeiras convicções. Espero que a história, aqui repetida, bem como a reprodução da verdadeira maneira pela qual Russell tratou dos temas “ofensivos”, ajudem a colocar as coisas em seu devido lugar.

Vários dos ensaios incluídos neste volume são reimpressos coma amável permissão de seus editores originais. Gostaria, pois, de agradecer à firma Watts and Co., que é a editora de Porque Não Sou Cristão e de Fez a Religião Contribuições úteis à Civilização?; aos senhores Routledge e Kegan Paul, que publicaram Aquilo Em Que Creio; à editora Hutchinson and Co., que publicou Sobrevivemos à Morte?; aos senhores Nicholson e Watson, que são os editores originais de O Destino de Thomas Paine, e ao American Mercury, em cujas páginas A Nossa Ética Sexual e A Liberdade e os “Colleges” primeiro apareceram. Desejo, ainda, agradecer aos meus amigos Prof. Antony Flew, Ruth Hoffman, Sheila Meyer e aos meus alunos Marilyn Chamey, Sara Kilian e John Viscide, que me ajudaram de muitas maneiras na preparação deste livro.

Finalmente, desejo expressar minha gratidão ao próprio Bertrand Russell, que, desde o começo, favoreceu este plano e cujo vivo interesse foi para mim, de todos os modos, grande fonte de inspiração.

Cidade de Nova York, outubro de 1956.

Paul Edwards

PREFÁCIO

A reimpressão, pelo Prof. Edwards, de vários de meus ensaios acerca de assuntos teológicos é, para mim, motivo de gratidão, principalmente diante das observações que tece em seu admirável prefácio. Sinto-me particularmente satisfeito com a oportunidade que me apresenta de reafirmar, deste modo, minhas convicções quanto aos temas de que tratam esses vários ensaios.

Correram, em anos recentes, rumores de que eu me opunha menos à ortodoxia religiosa do que antigamente. Tais rumores são inteiramente destituídos de fundamento. Considero todas as grandes religiões do mundo – budismo, cristianismo, islamismo e comunismo – não só falsas, como prejudiciais. É evidente, como questão de lógica, que, já que elas diferem entre si, apenas uma delas pode ser verdadeira. Com pouquíssimas exceções, a religião que um homem aceita é aquela da comunidade em que vive, o que torna óbvio que a influência do meio foi o que o levou a aceitar a referida religião. É verdade que os escolásticos inventaram o que declaravam ser argumentos lógicos provando a existência de Deus, e que tais argumentos, ou outros de teor semelhante, foram aceitos por muitos filósofos eminentes, mas a lógica a que esses argumentos tradicionais apelavam é um tipo de lógica aristotélica antiquada, hoje rejeitada, praticamente, por todos os lógicos, exceto os que são católicos. Entre esses argumentos, existe um que não é puramente lógico. Refiro-me ao argumento da prova teológica da existência de Deus. Tal argumento, porém, foi destruído por Darwin – e, de qualquer modo, só poderia tornar-se logicamente respeitável se se abandonasse a crença na onipotência de Deus. À parte a força lógica, há, para mim, algo estranho na apreciação ética daqueles que pensam que uma Deidade onipotente, onisciente e benevolente, após preparar o terreno, durante muitos milhões de anos de inanimadas nebulosas, se sentiria adequadamente recompensada com o aparecimento final de Hitler, Stalin e da bomba H.

A questão da verdade de uma religião é uma coisa, mas a questão de sua utilidade é outra, diferente. Estou tão firmemente persuadido de que as religiões são nocivas, como o estou de que são falsas.

O mal causado pela religião é de duas espécies: uma, dependendo da sorte de crença que se julga deve ser dada à mesma, e, a outra, das doutrinas particulares em que se crê.

Quanto à espécie de crença, considera-se virtude ter fé, isto é, ter-se uma convicção que não pode ser abalada por prova contrária. Ou, se a prova contrária poder levar à dúvida, afirma-se que a prova contrária deve ser suprimida. Por essa razão, não se permite aos jovens ouvir argumentos na Rússia, a favor do capitalismo ou, nos Estados Unidos, a favor do comunismo. Isso conserva a fé em ambos intacta e pronta para uma guerra de extermínio. A convicção de que é importante crer-se nisto ou naquilo, mesmo que uma investigação livre não apóie a crença em apreço, é comum a quase todas as religiões e inspira todos os sistemas de educação estatais. O resultado disso é que o espírito dos jovens fica tolhido e cheio de hostilidade fanática tanto contra aqueles que possuem outros fanatismos, como, de maneira ainda mais virulenta, contra os que são contrários a todos os fanatismos. O hábito de basear as convicções em provas, conferindo-lhes apenas o grau de certeza que a prova justifique, curaria, se se tornasse geral, a maior parte dos males de que o mundo sofre.

Mas, no momento, em quase todos os países, a educação tem por objetivo impedir o desenvolvimento de tal hábito, e os homens que se recusam a professar crença em algum sistema de dogmas infundados não são considerados em condições de ensinar os jovens.

Os males acima são independentes do credo particular em questão e existem igualmente em todos os credos defendidos de maneira dogmática. Mas também existem, na maioria das religiões, doutrinas éticas específicas que causam dano definido. A condenação, pelos católicos, do controle da natalidade, tornaria impossíveis a diminuição da pobreza e a abolição da guerra. As crenças hindus de que a vaca é um animal sagrado e de que é imoral às viúvas tornar a casar, causam muito sofrimento desnecessário. A crença comunista na ditadura de uma minoria de Crentes Verdadeiros produziu farta colheita.

Dizem-nos, às vezes, que somente o fanatismo pode tornar eficiente um grupo social. Penso que isso é inteiramente contrário às lições da história. Mas, seja como for, só os que adoram abjetamente o êxito podem considerar admirável a eficiência sem levar em consideração aquilo que é realizado. Quanto a mim, acho que é melhor fazer-se um pouco de bem do que muito mal. O mundo que eu gostaria de ver seria um mundo livre da virulência das hostilidades de grupo, capaz de compreender que a felicidade de todos deve antes derivar-se da cooperação do que da luta. Gostaria de ver um mundo em que a educação tivesse por objetivo antes a liberdade mental do que o encarceramento do espírito dos jovens numa rígida armadura de dogmas, que tem em vista protegê-los, através da vida, contra os dardos das provas imparciais. O mundo precisa de corações e de cérebros francos, e não é mediante sistemas rígidos, quer sejam velhos ou novos, que isso pode ser conseguido.

BERTRAND RUSSELL

POR QUE NÃO SOU CRISTÃO

Esta palestra foi proferida, a 6 de março de 1927, na

Prefeitura Municipal de Battersea, sob os auspícios da

Secção do Sul de Londres da National Secular Society.

Como vosso presidente vos disse, o assunto sobre que vou falar-vos esta noite se intitula: “Porque não sou cristão”. Talvez fosse bom, antes de mais nada, procurássemos formular o que se entende pela palavra “cristão”. É ela usada, hoje em dia, por um grande número de pessoas, num sentido muito impreciso. Para alguns, não significa senão uma pessoa que procura viver uma vida virtuosa. Neste sentido, creio que haveria cristãos em todas as seitas e em todos os credos; mas não me parece que esse seja o sentido próprio da palavra, quando mais não fosse porque isso implicaria que todas as pessoas que não são cristãs – todos os budistas, confucianos, maometanos e assim por diante – não estão procurando viver uma vida virtuosa. Não considero cristã qualquer pessoa que tente viver decentemente de acordo com sua razão. Penso que se deve ter uma certa dose de crença definida, antes que a gente tenha o direito de se considerar cristão. Essa palavra não tem hoje o mesmo sentido vigoroso que tinha ao tempo de Santo Agostinho e de Santo Tomás de Aquino. Então, quando um homem se dizia cristão, sabia-se o que é que ele queria significar. As pessoas aceitavam toda uma série de crenças estabelecida com grande precisão, e acreditavam, com toda a força de suas convicções, em cada sílaba de tais crenças.

QUE É UM CRISTÃO?

Hoje em dia não é bem assim. Tem-se de ser um pouco mais vago quanto ao sentido de cristianismo. Penso, porém, que há dois itens diferentes e essenciais para que alguém se intitule cristão. O primeiro é de natureza dogmática – isto é, tem-se de acreditar em Deus e na imortalidade. Se não se acredita nessas duas coisas, não creio que alguém possa chamar-se, apropriadamente, cristão. Além disso, como o próprio nome o indica, deve-se ter alguma espécie de crença acerca de Cristo. Os maometanos, por exemplo, também acreditam em Deus e na imortalidade e, no entanto, dificilmente poderiam chamar-se cristãos. Acho que se precisa ter, no mínimo, a crença de que Cristo era, senão divino, pelo menos o melhor e o mais sábio dos homens. Se não tiverdes ao menos essa crença quanto a Cristo, não creio que tenhais qualquer direito de intitular-vos cristãos. Existe, naturalmente, um outro sentido, que poderá ser encontrado no Whitaker’s Almanack e em livros de geografia, nos quais se diz que a população do mundo se divide em cristãos, maometanos, budistas, adoradores de fetiches e assim por diante – e, nesse sentido, somos todos cristãos. Os livros de geografia incluem-nos a todos, mas isso num sentido puramente geográfico, que, parece-me, podemos ignorar. Por conseguinte, julgo que, ao dizer-vos que não sou cristão, tenho de contar-vos duas coisas diferentes: primeiro, por que motivo não acredito em Deus e na imortalidade e, segundo, porque não acho que Cristo foi o melhor e o mais sábio dos homens, embora eu Lhe conceda um grau muito elevado de bondade moral.

Mas, quanto aos esforços bem sucedidos dos incrédulos, no passado, não poderia valer-me de uma definição de cristianismo tão elástica como essa. Como disse antes, antigamente possuía ela um sentido muito mais vigoroso. Incluía, por exemplo, a crença no inferno. A crença no fogo eterno do inferno era cláusula essencial da fé cristã até tempos bastante recentes. Neste país, como sabeis, deixou de ser item essencial devido a uma decisão do Conselho Privado e, por causa dessa decisão, houve uma dissensão entre o Arcebispo de Cantuária e o Arcebispo de York – mas, neste país, a nossa religião é estabelecida por ato do Parlamento e, por conseguinte, o Conselho Privado pôde sobrepor-se a Suas Excelências Reverendíssimas e o inferno deixou de ser coisa necessária a um cristão. Não insistirei, portanto, em que um cristão deva acreditar no inferno.



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