O mercado como teoria da sociedade: a radicalidade filosófica de Adam Smith



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O mercado como teoria da sociedade: a radicalidade filosófica de Adam Smith

Angela Ganem1

Adam Smith pensa a ordem social como uma emergência que harmoniza o caos potencial dos interesses individuais e o traduz em bem estar para a sociedade. Ao invés de se chocarem induzindo à guerra hobbesiana ou à paz instável lockiana, os interesses egoísticos são agraciados por uma mão invisível que os orienta para o bem-estar coletivo. Uma solução harmoniosa que supõe a dissipação aparente dos conflitos próprios de uma sociedade hierarquizada e dispensa, numa primeira leitura teórica, o príncipe e a moral. Alem disso, esta solução consiste numa explicação nada trivial que, utilizando-se de uma metáfora, - a mão invisível (que traduz a presença de Deus e revela a herança teológica escocesa na obra de Smith, segundo a opinião de alguns )2 - funciona como um operador social. Sua teoria do mercado se constitui na matriz teórica da ordem social liberal. Neste sentido, o mercado pode se entendido como algo mais complexo do que o locus da troca, e assim sendo a mão invisível não se reduz a um simples mecanismo de ajuste automático, representando a própria viabilização da ordem social, seu operador último, sua forma de organização social. Esta é uma leitura da obra de Smith que reivindica para a economia, desde seus primórdios, a responsabilidade de se constituir numa teoria geral da sociedade e entende a solução metodológica smithiana como a palavra final da modernidade para a explicação da lógica dos fenômenos coletivos a partir de uma démarche individual. Adam Smith faz do mercado uma solução superior à do contrato e da economia uma possibilidade de resolução da política e da regulação do social. Acredito que, ao enfatizar esta dimensão filosófica da explicação da ordem social liberal em que se tem uma teoria alternativa da ordem social em bases espontâneas podemos entender o poder germinativo da questão que vem da modernidade, as idiossincrasias do nascimento da economia sob a égide de um filósofo moral e a abertura de proposições que sua obra constantemente recoloca para a história do pensamento. Este olhar para sua obra reafirma a genialidade desse autor inquieto, que a historiografia crítica define como um dos grandes pensadores da modernidade. Compreender a extensão dessa genialidade, sublinhando sua formação como filósofo, está de certa forma subentendido no decorrer deste trabalho. O texto foi construído em três movimentos: o primeiro, na história das idéias; o segundo, na História do Pensamento Econômico; e o terceiro, reconciliando os dois primeiros sob a perspectiva de nosso argumento.

I) O primeiro movimento trata do debate dos modernos, e portanto, dos marcos conceituais para uma ciência que nascerá como resposta à mais importante e mobilizadora questão da modernidade: pensar e explicar a sociedade desencantada nos termos weberianos ou auto-instituída, porque repousada e fundada no homem, e portanto, independentemente da explicação divina. Nesta parte retomaremos a questão mobilizadora e instigante dos modernos e o diálogo interdiscursivo que foi travado no quadro da história das idéias, no afã de encontrar a melhor solução para a explicação da ordem social .

II) O segundo movimento recupera, na historiografia do pensamento econômico, a questão intitulada Das Adam Smith Problem. Faço aqui a suposição de que iluminar o problema da unidade ou não da obra com a questão filosófica dos modernos, não apenas pontua melhor a discussão travada na História do Pensamento Econômico, como também abre para os pontos que serão discutidos no terceiro movimento, a natureza filosófica do autor e os paradoxos e tensões encontrados na busca dos fundamentos da economia política como disciplina autônoma.

III) O terceiro movimento sublinha o eixo filosófico , nossa opção metodológica, que se encontrará renovada pela historiografia das idéias e do pensamento econômico. O eixo filosófico será trabalhado no sentido de recuperar a unidade da obra, recuperar a filosofia de Adam Smith e mostrar a tensão existente entre a questão filosófica dos modernos, que orienta a resposta do autor e a busca dos contornos do domínio disciplinar da uma ciência nascente, a economia. Esta solução se constituiu num duplo desafio para Adam Smith: oferecer uma resposta para o pensamento humano filosófico/cientifico modernidade fundamentando-a no campo disciplinar da economia.

I

A questão dos modernos



O silêncio eterno desses espaços infinitos atemoriza-me. Pascal
O exercício de voltar ao passado, recuperando o embate travado no campo da história das idéias filosóficas e científicas da modernidade para melhor compreender o nascimento da economia, já foi realizado por inúmeros autores: Dumont(1977), Hirschman(1977), Rosanvalon(1979),Defalvard(1995),Vidonne(1986),Dupuy (1992), Bianchi(1987), Redman(1997),Zanini/Mondadori,(1997) e Marshall (1998). Isto para citar apenas alguns dos que retomaram recentemente as bases do nascimento da economia neste quadro de três séculos de história do pensamento humano. Recuperar a historiografia das idéias tem como objetivo sublinhar a questão filosófica e angustiante dos modernos, entendendo sua radical abertura para o pensamento humano no quadro de idéias da modernidade.

Que leis universais regulam a ordem física? Como explicar a ordem social independente da explicação divina, tendo como ponto de partida o indivíduo? Como enfrentar o desencantamento dessa sociedade laica que se constrói por ela mesma e se autogoverna decidindo seu próprio destino ? Para responder a esta importante questão filosófica, que envolve uma ruptura com o pensamento teológico e pretende uma explicação da ordem social fundamentada na démarche individual, os sábios modernos a investigaram em três planos teóricos, os três tendo o homem como sujeito do conhecimento numa tentativa de dessacralização do saber. O primeiro, marcadamente científico-físico, é expresso pela Revolução Científica Moderna e tem, em Galileu (após Kepler e Copérnico), a expressão da ruptura da ciência moderna e, em Newton, a sistematização sólida da física clássica. Neste movimento antropomórfico próprio da modernidade, o homem pretendeu revelar a partir do seu conhecimento uma natureza velada e mitificada, porque confundida anteriormente com a imagem divina. O homem desvenda neste processo a ordem física a partir de um método e afirma que o universo é passível de ser decifrado porque escrito em caracteres geométricos, Com isto, ele expulsa os anjos do céu e rompe com a cosmogonia aristotélica3, se reafirmando como centro do saber. Um segundo plano, marcado pelas questões da filosofia do conhecimento e representado, de um lado por Bacon, que lança as bases da ciência experimental, e de outro pelo sábio da filosofia racionalista moderna , René Descartes, que propõe a matemática como mathesis universalis para o conhecimento. A terceira vertente, e a que mais nos interessa diretamente, é a tentativa de compreensão da ordem social pela filosofia moral e política. Aqui, o homem enfrentará o desafio maior que é ser sujeito do conhecimento, ao mesmo tempo que seu objeto. Em outros termos, trata-se de interrogar sobre a capacidade potencial do homem de compreender a ordem social e seu fundamento. Inúmeros filósofos trataram dessa instigante questão e procuraram nas paixões humanas a possibilidade de decifrar o homem e construir em bases sólidas uma explicação de porque ao invés de se destruírem, os homens conseguem viver em sociedade. Escolheremos aqueles que, através de suas obras estabeleceram de alguma forma diálogo e influência e até possibilitaram a migração de conceitos de suas áreas para compor o ideário liberal e enriquecer com isso a conceituação adotada por Adam Smith na sua brilhante explicação para a lógica dos fenômenos coletivos. Outros ainda exerceram influência pela possibilidade do confronto, desafiando Adam Smith com suas propostas. Todos aqui citados contribuíram para que a questão da modernidade adquirisse em Adam Smith uma versão mais acabada. Cito, entre muitos, os que me chamaram particularmente a atenção: Maquiavel, Locke, Hobbes, Mandeville, Montesquieu e Hume.

Maquiavel (1469-1527)é a primeira tentativa no campo da política de ruptura com a explicação divina, apresentando uma teoria política ditada pela praxis de aconselhar o príncipe na difícil tarefa de governar. O radicalismo de seu realismo político se apresenta na idéia de que os povos constituem seus próprios destinos e numa noção de interesse associada a ragione de stato, que rompe com a noção de avareza e se associa a um modo esclarecido de governar Maquiavel , Hirschman (1979), Strauss (1986). Se a natureza tem paixões, de nada adianta reprimi-las. A solução maquiavélica é mergulhar no realismo gritante da contingência humana, aceitar o homem como ele realmente é e não como os filósofos gostariam que fosse. Assim, melhor do que reprimir, é mobilizar paixões e, sobretudo, sublinhar seu carater instrumental, sua eficácia e utilidade no que diz respeito a fins que se quer alcançar. Maquiavel, ao permanecer no plano da arte de governar, em que o interesse do príncipe aparece confundido com o interesse nacional , foi fiel ao tempo em que viveu, refletindo nas suas inquietações o momento de formação dos Estados Nacionais.

Nosso segundo e grande autor é Hobbes (1588-1679), considerado por muitos como o ponto de partida teórico para a compreensão das bases da sociedade liberal. Dedicando toda a primeira parte do Leviathan ao estudo da natureza do homem, Hobbes constrói magistralmente sua demonstração da passagem de um estado de natureza para a sociedade civil através do pacto social, elemento que viabiliza e explica a emergência da ordem social, produzindo uma teoria que é considerada pela literatura crítica social a mais acabada explicação da emergência da ordem pelo contrato. Partindo do homem no seu estado bruto, ignorante, sujo, solitário e movido por paixões destrutivas, como a concorrência, o desejo de glória e a desconfiança, o homem, no limite da destruição total, clama a razão, que associada à paixão construtiva do desejo de vida e da sobrevivência, define o pacto social que garante os direitos à vida e a possibilidade de convívio numa sociedade. No limite da destruição, o amor à vida. No conflito morte x vida, a razão coopera com a paixão mais forte, e Hobbes fornece a explicação para a emergência da ordem pelo contrato, o que significa a instauração do estado e da sociedade a um só tempo, ambos resultados do pacto. A razão, que se alia à paixão da vida e é expressa pela linguagem, ordena e dita as regras geométricas da arte de governar. Com este edifício teórico, as bases axiomáticas da ciência política são definidas, preenchendo as condições epistemológicas para o seu nascimento, (Hobbes,1983, Strauss,1986, Zarka, 1982, Ganem,1993 ).O estado liberal, fruto da razão, é o garantidor incondicional do direito à vida.4 Adam Smith fará correções no desejo básico do homem, transmudando-o do desejo de glória fratricida de Hobbes para o desejo do homem de melhorar sua própria condição, através do desejo de ganho. Herdado de Hume a paixão do ganho, ele fundará a sociabilidade, posto que entendida como universal, isto é, comum a todos os homens. Adam Smith trabalhará esta nova dimensão dos interesses pessoais, plantando-a no solo da economia. Mas o mais importante, no entanto, é que ele entenderá em toda a extensão e a complexidade a solução da emergência da ordem pelo contrato de Hobbes e tentará responder no mesmo plano teórico o desafio lançado.

Locke (1632-1704) publica em 1690 duas obras: o Ensaio sobre o entendimento humano e Dois Tratados sobre o Governo. Na primeira, ele expõe uma teoria sensualista e empirista sobre o conhecimento humano e, na segunda, desenvolve a Doutrina da Propriedade, construção teórica indispensável para o ideário smithiano, já que fornece o ponto de partida jurídico-institucional, pré condição pelo direito para que Adam Smith pudesse pensar a possibilidade de emergência da ordem na sociedade liberal. Locke, como a maior parte dos contratualistas, parte do conceito de um estado de natureza anterior a sociedade. Seu estado de natureza pressupõe "que todo homem é depositário do resto da humanidade e deve fazer respeitar as leis da natureza." Nestas leis, ele inclui a propriedade e a herança (seu corolário), como partes dos direitos de natureza, somando-as ao direito à vida, à liberdade e à saúde. No estado de natureza, sendo o homem, "o senhor de sua própria pessoa e de suas posses", o exercício do direito particular deveria conduzir naturalmente à conservação e à felicidade de todos, definida esta última como a possibilidade de salvaguardar a propriedade , condição obtida apenas na sociedade. A propriedade, se salvaguardada e protegida pelo direito, é condição de viabilidade da sociedade e, a um só tempo, também, seu fim (thelos) e felicidade. Assentando a fonte da propriedade (que se traduz numa acumulação de bens) no trabalho, ele diferencia os homens nas suas qualidades laboriosas, o que definiria uma distribuição desigual dos bens e do seu bem maior, a terra (Bianchi,1988, Vidonne,1986 ). Locke lança as bases do direito da sociedade capitalista e liberal, estendendo e completando o estado protetor dos direitos à vida de Hobbes (Strauss,1986).Na sua concepção ,os homens entram em sociedade para proteger os bens que adquiriram no estado de natureza, razão pela qual seu estado de natureza não é nem o de guerra hobbesiano nem o idílico de Roussseau, mas sim instável, porque se apoia no ponto sensível de uma sociedade hierarquizada e dividida. Adam Smith toma para si a pré-condição da garantia dos direitos de propriedade definidos por Locke como elemento indispensável para pensar sua solução harmoniosa, mas não descarta a tensão e o conflito latente na sociedade, produzidos pela hierarquização dos homens. Esta questão não resolvida estará presente tanto na Teoria dos Sentimentos Morais como na Riqueza das Nações, relativizando a idealização harmônica do mercado e reintroduzindo o conflito5.

Mandeville (1670-1733), em The Fable of the Bees, publicado em 1714, veicula idéias marcadamente modernas, ao mesmo tempo em que ironiza a sociedade liberal nascente.6 O paradoxo social, apresentado na idéia de que benefícios públicos resultam de ações viciosas, expõe três noções importantes para o ideário e a inteligibilidade da ordem social liberal: I) explora a noção de mão invisível, articulando a paixão privada do vício ao resultado coletivo do benefício público; II) fornece o melhor exemplo para a tese brilhantemente exposta em Hirschman (1977) de que é melhor mobilizar as paixões do que reprimi-las; III) finalmente, encarna exemplarmente a filosofia utilitarista, no sentido de que o que se busca é a maior felicidade para o maior número de pessoas possível, apresentando com isto uma visão asséptica da moralidade. Este último ponto levou Dumont (1977) a defini-lo como o momento de ruptura com a moralidade, deixando aberto o caminho para Adam Smith pensar o terreno da economia, recortado e livre da moral. Dentro dessa linha , cito exemplarmente Ely Halévy, no seu livro de 1903, já considerado um clássico da história das idéias, La Formation du Radicalisme Philosophique, em que o autor sublinha esta linha de continuidade ”Smith retoma a doutrina de Mandeville expondo-a sob uma forma não mais paradoxal e literária, mas racional e científica". (Halévy,1994). Retornaremos mais adiante a este ponto que considero controverso. Poderíamos adiantar que a discordância em torno da valoração moral de Mandeville sobre paixões supostamente viciosas, como a vaidade, contribuiu para que Adam Smith aprofundasse seu tratado sobre o comportamento humano. Ele retomará este ponto focal na TSM, relativizando a vaidade entre outros vícios e explorando a possibilidade de associá-la ao amor-próprio, fundado no desejo de fazer coisas honradas. (TSM,1997,534-546). Este amor-próprio, que fará parte integrante dos interesses pessoais, está fundado no julgamento moral, isto é, na aprovação da sociedade, e pertencerá a outro universo conceptual distinto do self interest. Exploraremos na segunda parte as tensões existentes entre a moralidade e os interesses pessoais nas duas obras de Adam Smith.

Montesquieu (1689-1755), identificado como um dos precursores do topos liberal, na sua obra mestra: De L’Esprit des Lois (1748), foi um dos que melhor sistematizou a idéia da mão invisível, associada a uma forma embrionária de mercado: o comércio internacional entre nações. Na teoria do doux commerce, ele defende a idéia do que o comércio suaviza os costumes e promove a paz entre as nações, tese diametralmente oposta à crueza da desigualdade do processo de acumulação primitiva de capital, sublinhada magistralmente por Marx um século depois. O comércio para o autor não é apenas fator de integração social entre nações, elemento de harmonia como veículo civilizatório polindo costumes das nações bárbaras. Sua segunda idéia de ganhar dinheiro no comércio, como algo inocente e calmo, terá um acabamento radical em Hume, que o associou a uma paixão calma, dando-lhe a previsibilidade e a constância necessárias para se constituir em princípio explicativo universal do comportamento humano. Enquanto Montesquieu influencia Adam Smith na idéia de ordem social mediada pela mão invisível, Hume e Hutcheson exercem uma influência direta em Adam Smith na busca do fundamento do homem. É o que veremos a seguir.

Hume ( 1711-1776) publica aos 28 anos sua obra prima, O Tratado da Natureza Humana, em três tomos: os dois primeiros, em 1739, e o terceiro em 1740, quase vinte anos antes da TSM de Adam Smith. É decisiva a influência de Hume sobre Adam Smith. Ambos partilharam na mesma época dos ensinamentos do mestre de Glasgow, Francis Hutcheson.7 O estudo do tratado revela um tratamento sofisticado em inúmeras questões de ordem filosófica. Hume oferece solução para algumas questões pendentes no campo da fundamentação do homem, para a explicação da ordem social, retirando o homem do estado de natureza e concebendo-o nos marcos da sociedade civil. Entre outros pontos importantes de sua obra, podemos afirmar que Hume: I) substitui definitivamente a razão pela paixão na compreensão do comportamento humano: "a razão", diz o autor "é e deve ser escrava das paixões"; II.) elabora um novo tratamento ao dualismo da ética inglesa e ao princípio das paixões compensadoras, substituindo o altruísmo de Hutcheson (altruísmo x egoísmo) pela simpatia, elemento este que se torna central na sua obra: "nenhuma qualidade é mais interessante na natureza humana que a nossa propensão em simpatizar com os outros e se comunicar com os seus sentimentos"; III.) funda a sociabilidade no desejo de ganho comum a todos os homens. "A avareza ou o amor ao ganho é uma paixão universal que age em todos os homem...". Esse desejo de ganho não é apenas um aspecto da natureza, mas uma exigência lógica necessária, a coerência de um mundo, no qual a sociabilidade procede dos indivíduos . O desejo de melhorar de condição, expresso anteriormente em desejo de poder, passa para o desejo de ganho ou de melhorar sua própria condição; IV) articula, como Locke, o desejo do homem ao trabalho, sendo este "a única maneira do homem obter coisas". O homem, além de um ser do desejo, é também um ser de necessidade, e a sociedade aparece para Hume com um meio útil de obter certos fins, realizando desejos e resolvendo necessidades; V) explora uma questão importante da filosofia moral, que é o sentimento e o julgamento de aprovação, estabelecendo a necessidade de uma análise comportamental que leve em conta as relações intersubjetivas. Sua idéia de que "os espíritos dos homens são espelhos uns para os outros" enriquecerá a noção de sujeito smithiano (Dupuy,1992), exigindo tratamento mais sofisticado do que a míope identificação desse agente ao homem econômico racional neoclássico, erro que muitos autores de História do Pensamento Ecônomco cometeram, influenciados pela apropriação indevida de Adam Smith feita pelos neoclássicos.

A partir da trajetória desses autores, estamos com todos os elementos para construir a inteligibilidade dessa ordem dessacralizada, como Adam Smith o fez, tendo em vista esta radical abertura para os modernos. Tendo como pré-condição o direito liberal, que garante o direito à vida, à liberdade e à propriedade (tomados de Hobbes e Locke), a ordem social estaria assentada no seu fundamento último: o indivíduo e suas paixões mobilizadoras. Estas paixões, não estariam mais associadas ao desejo de poder e glória (Hobbes, Montesquieu) mas transmudadas, na paixão de ganhar dinheiro, de acumular infinitamente, de comprar toda a sorte de mercadorias, e sedimentariam o interesse privado da busca constante de melhorar sua própria condição(Hume). Esta paixão calma, estável e universal, no sentido de ser comum a todos os homens, estaria livre das idéias de vício e de pecado (Mandeville) e teria como grande aliada a razão expressa no cálculo previsível e na prudência. No segundo plano, teríamos um operador, a mão invisível, que substituindo o legislador, permitiria que a busca desses interesses não resultasse na guerra (Hobbes), mas na paz, expressão do interesse coletivo realizado. O mercado, como fator de integração social, atinge todos os planos e, superando o comércio entre nações (Montesquieu), se traduziria no próprio mecanismo de organização da sociedade liberal .A mão invisível, em substituição ao legislador, se tornaria, portanto o operador último dessa nova ordem social. Esta adquiriria autonomia explicativa nos fundamentos do indivíduo e descartaria para a explicação de sua emergência, o contrato social (Hobbes).

Retenhamos, portanto, este ponto de abertura, entendamos que se trata de um desafio muito maior do que a historiografia apressada nos quer impôr e mergulhemos no autor mais lido e discutido da HPE . Farei uso do debate em torno de Das Adam Smith Problem, não apenas para retomar a questão da unidade ou não de sua obra, como também para mostrar que o fio condutor filosófico revela as questões cruciais subentendidas por trás do debate. Que a leitura cuidadosa de sua obra e as múltiplas reflexões sobre ela constantemente renovadas no tempo, testemunhem não apenas a sua riqueza , mas também a natureza filosófica do autor, recolocando em outras bases a discussão sobre o nascimento da economia.




II



Das Adam Smith Problem


Cada faculdade do ser humano é a medida com a qual ele julga a faculdade do outro ... Julgo seu ódio pelo meu ódio, sua razão pela minha razão, seu amor pelo meu amor. Não tenho e não posso ter outra forma de julgar. Adam Smith, TSM.



Das Adam Smith Problem foi o nome dado pela escola histórica alemã à questão da relação entre a Teoria dos Sentimentos Morais (TSM), publicada em 1759 e a Riqueza das Nações (RN) publicada em 1776. A partir desse marco duas teses disputaram a verdade sobre a obra de Adam Smith, a primeira tese definindo uma ruptura na sua trajetória intelectual e, portanto, na obra, e a segunda defendendo sua unidade.

Primeira tese: ruptura ou mudança de enfoque


Um dos debates em HPE que mais mobilizou teóricos e historiadores do pensamento e das idéias8 aparece pela primeira vez com o argumento elaborado pela escola histórica alemã de que existiria entre a TSM e a RN uma ruptura radical. Foi assim que Roscher (1843), seguido de Hildebrand (1848), Knies (1853) e depois Shmoller (1870), marcaram uma posição crítica com relação à concepção extrema do liberalismo, proposta pela escola de Manchester. Esta defendia o laisser-faire, sugerindo que a perseguição dos interesses individuais resultaria sempre em harmonia. Knies, que foi mais longe, tenta mostrar que ocorre um reducionismo da noção de interesse privado em Adam Smith, acusando-o de ter confundido os dois instintos que estão por trás do interesse privado. Neste interesse, coexistiriam tanto instintos egoístas, que são naturalmente conflitivos (exatamente o contrário do que se propalava), e instintos sociais, que conciliam interesses próprios com o interesse do outro . No segundo, estaria a fundação moral da sociedade . Knies acusa Adam Smith de ter confundido os dois (Bertrand,1994).9 Isto conduziria a uma contradição na obra do pensador, que revelaria sua incapacidade de pensar uma sociedade fundada sob a base de um sentimento moral altruísta (a simpatia), em contraposição a uma sociedade regida pelo egoísmo.

Finalmente, no último quartel do século XIX, um outro autor tenta provar a ruptura no pensamento de Adam Smith. Skarzynski (1878) defende o conhecido argumento da influência do materialismo francês durante a estadia de Smith na França. Seu argumento deixa transparecer um frágil Adam Smith, que sairia rapidamente da influência da Ética do mestre Huctheson, para se influenciar pelo racionalismo francês de Helvetius10. Skarzynski vai desenvolver também a idéia bastante difundida após sua obra que é a possibilidade de estudar dois universos isoladamente. Ele funda seu argumento em Buckle (1861) que afirma que Smith conseguiu elevar a filosofia escocesa ao rank de ciência, porque aplicou nela o método dedutivo-geométrico, isolando elementos. Seria possível isolar o egoísmo da simpatia e com isso tratar separadamente os dois universos, a economia e a moral. (Russel:1986,Raphael,D.D.eMacfie:1976;Bertrand:1994)

No século XX, poucos autores defendem uma divergência irreconciliável entre as duas obras. O primeiro é Jacob Viner, que publica em 1927 o seu já considerado clássico texto Adam Smith e o laisser faire, republicado inúmeras vezes. O autor usa o argumento de que na TSM existe uma ordem harmoniosa da natureza concebida e guiada por um Deus bom, enquanto que na RN o que Adam Smith observa são imperfeições baseadas na coleta de dados acumulados mediante a observação da realidade. "Na sua obra anterior (TSM), Smith foi um filósofo puramente especulativo(...) na RN ; Smith usou uma rica coleta de dados(....) e toda vez que surgiu um conflito grave entre sua generalização e seus dados, Smith abandonou a generalização" Viner (I927/1971, 332,333). A Riqueza das Nações para Viner significa realismo em última análise, expresso em superação, ruptura com o pensamento metafísico da TSM. O filósofo/teólogo assume a função de economista/realista.

O segundo autor é Raphael (1975), que retoma o ponto de Skarzynski e Viner e reafirma que existem dois domínios separados: o primeiro, o da simpatia na esfera moral; e o segundo, o dos interesses, na esfera econômica, este último não devendo nada à simpatia. Raphael fará a ponte para duas teses importantes da literatura contemporânea, ambas publicadas em 1977. A primeira é a de Louis Dumont no seu clássico L’Homo Aequalis, em que defende a conhecida tese de que a economia, para se constituir numa ciência autônoma, se emanciparia primeiro da política, depois da moral. Este caminho de emancipação seria o mesmo caminho que leva Adam Smith a passar de filósofo à economista. A segunda tese vem de Albert Hirschman , um americano crítico da ortodoxia e defensor da economia como uma ciência moral (mas não para Adam Smith) que elabora uma arqueologia da noção de interesse nas suas múltiplas formas, desde o interesse privado, que aparece confundido com interesse nacional, passando pelo desejo de poder, até chegar ao interesse do ganho material. Esse interesse , paixão calma e previsível, é alçado a remédio, produto da paz. Em ambos, existe a idéia de que a economia, para se autonomizar, se separa da moral e da política O preço dessa autonomização é o reducionismo da economia e do indivíduo, que será o elemento central da crítica visceral que Dupuy fará a esses dois autores, como veremos mais adiante.


Segunda tese : unidade


Podemos definir três momentos históricos de defesa do sentido unitário da obra . O primeiro, por volta de 1890, é considerado a primeira reação à escola histórica; o segundo, com o trabalho germinal de Morrow; e o terceiro, contemporaneamente marcado pela contribuição de vários autores, dentre os quais destaco, J.P. Dupuy.

A primeira reação à ruptura aparece sob a forma do testemunho de fatos, descobertas de obras e declarações do autor.Vejamos:I) Inicialmente, por volta de 1890, é demonstrado por quatro autores11 que ao invés de ruptura, teríamos a unidade da obra. Baseando-se na publicação de Lectures on Jurisprudence, é veiculado o argumento de que, antes mesmo de sua partida para a França, Adam Smith já tinha formulado as bases teóricas da RN e que haveria feito uma relação entre as duas obras a partir da idéia de uma ação econômica, que tinha sua fonte na paixão do self-love. II) Na declaração dos dois biógrafos oficiais de A Smith, que afirmaram que não teria havido mudança de opinião do autor, além do fato de ter declarado que considerava a TSM sua obra mais importante. Somam-se a essas evidências, o fato de que Adam Smith reeditou seis vezes a TSM, a última no ano de sua morte, após a RN. III) Nos últimos escritos de Adam Smith, o autor concebeu sua obra como algo unificado e, em 1790, no prefácio à sexta edição, colocara como se arrependia de não ter conseguido completar a tarefa a que ele havia se proposto em 1759 , desenvolvendo a jurisprudência, tarefa iniciada na TSM.(Bertrand 1993 , Raphael e Macfie,1976)

O segundo momento de defesa da unidade sairá dos argumentos fatuais para se concentrar na noção de simpatia, considerado já naquela época o conceito morfogenético da TSM. Depois desse primeiro momento em defesa da unidade, Morrow publica em 1923 , The Significance of the Sympathy in Hume and Adam Smith. A escola histórica havia defendido que o domínio ético e o domínio econômico seriam mutuamente exclusivos. Glenn Morrow vai mostrar que o self-interest pode ser definido como virtude moral. Na TSM, Adam Smith coloca o indivíduo como participante de um jogo de olhares recíprocos, uma comunicação de sentimentos, da qual poderiam se extrair , os fundamentos de sua teoria moral. Para Adam Smith, a consciência individual seria sempre incompleta, constituindo-se a partir do olhar do outro. No domínio moral, a harmonia se funda sobre o princípio operador da simpatia e tanto o egoísmo como a simpatia estariam articulados sobre a base do mesmo operador moral. Criticando a influência materialista sobre Adam Smith, Morrow afirma que era natural para o autor o estabelecimento de uma ciência do homem a partir do estudo de seus sentimentos. Em última análise, Morrow coloca que o problema maior não foi resolvido, residindo no estatuto filosófico e científico da análise econômica. Morrow, entre todos os autores até aqui, é o que consegue colocar com maior clareza a questão e chegar mais próximo da verdadeira leitura da obra de Adam Smith.

O terceiro momento trata da versão contemporânea da unidade da obra, em que é possível observar, com contornos cada vez mais claros, a polêmica até então meio velada em torno dos fundamentos da economia e da autonomização da economia. A maior parte dos autores, inclusive Macfie e Raphael (1976) compartilham da opinião, hoje considerada consensual, de que a obra não exprime nem contradição nem ruptura. São inúmeros os enfoques sobre as possibilidades de união entre as duas obras. Heilbroner (1984), por exemplo recupera a idéia de Macfie, de que o homem econômico da RN é o prudente homem da TSM. Ele tentará demonstrar esta mesma natureza do homem, trilhando as duas obras e lendo-as como uma demonstração de Adam Smith sobre o processo de socialização do homem. Smith partiria do homem primitivo no início da TSM e chegaria ao homem socializado exposto ao olhar do outro no final da TSM e, também, início da RN. Assim temos um ponto de passagem entre as duas obras e a demonstração inequívoca da união entre elas. Embora o argumento seja interessante para recuperar o sentido unitário da obra, não considero este o melhor caminho a perseguir. Acho que a idéia importada da sociologia de entender a ordem social como espaço teatralizado se tornou muito mais profícua no tempo, enriquecendo o debate e iluminando a obra em campos até então pouco explorados . O primeiro a utilizar esta idéia para compreender a TSM foi o professor de literatura de Yale, Marshall, em 1984, com seu texto Adam Smith and Theatriclity of Moral Sentiments. Neste trabalho, ele retoma a velha idéia do teatro rousseauniano em que cada participante é um duplo: ator e espectador, ou espetáculo e espectador . Toda a TSM torna-se palco para que a angústia das pessoas se manifeste quando estas são colocadas sob o olhar do outro no palco: elas provocarão simpatia, elas serão aprovadas? O reconhecimento moral é chamado para o centro da questão e permite mostrar a incompletude do homem, sua não auto-suficiência, sua necessidade infinita do outro. Esta idéia será retomada primeiro por Dupuy (1993), e depois por Todorov (1996) e Justman (1996) e por Brown (1997) entre outros. Escolho, no entanto, pelo pioneirismo, acuidade critica e riqueza de argumentos, J.P. Dupuy para representar o atual momento em torno da defesa da unidade da obra.

Jean Pierre Dupuy retoma os trabalhos de Morrow (1923) e Marshall (1984), no quadro do debate das idéias dos últimos 20 anos. A importância do seu trabalho reside, a meu juízo, numa dupla contribuição: a construção clara do argumento e a crítica visceral que faz às teses reducionistas de Louis Dumont e Albert Hirschman, dois monstros sagrados da literatura crítica. Cito de Dupuy uma frase elucidativa, referindo-se aos dois: "esta idéia da economia como redução , delimitando seu domínio próprio, é cega da verdadeira contribuicão de Adam Smith. (Dupuy, 1993). Sua crítica atinge, no entanto, não apenas aos dois iconoclastas do pensamento contemporâneo, como aos neoclássicos. Estes últimos, além de reduzirem a obra de Adam Smith, se apropriam dela, tentando traduzi-la aos seus próprios termos. Para Dupuy, todo o equívoco de interpretação desses autores surge da armadilha ditada pela busca de autonomia da ciência. Isto é, a economia só poderia se constituir como disciplina autônoma, reduzindo-se. Retomaremos este ponto.

O autor de Le Sacrifice et L’Envie parte da noção de simpatia na TSM para chegar ao interesse na RN . Serei fiel aos seus argumentos, mas me permito fazer o movimento inverso de sua exposição, partindo do interesse privado, conceito que liga diretamente as duas obras, para depois tratar a simpatia como conceito morfogenético da TSM.

O autor retoma a discussão em torno da natureza do interesse privado da velha escola histórica alemã. O interesse privado presente nas duas obras e repetidamente explorado na RN permitiria duas leituras. A primeira, reducionista, identificaria o interesse privado ao self-interest. Nesta perspectiva, o indivíduo seria caracteristicamente auto-centrado, isolado, auto-suficiente, fechado em si mesmo e poderia perfeitamente ser traduzido pela noção do homem econômico racional, da tradição neoclássica. A segunda perspectiva, que Dupuy retoma de Morrow e da tradição unitária da obra, teria o self love como traço central. O amor-próprio, eixo do interesse, retiraria toda a sua substância do reconhecimento do outro. Ele seria necessariamente mediado pelo outro. Ao necessitar visceralmente da aprovação do outro, o sujeito smithiano se abriria incondicionalmente e reafirmaria ontologicamente sua substancial incompletude.12

Para compreender melhor este ponto, sublinho aqui quatro interlocuções que Smith faz e que Dupuy indiretamente deixa transparecer no seu argumento. A primeira é com o cristianismo, a segunda com Hume, a terceira com Rousseau e a quarta com a filosofia empiricista. Com o cristianismo, Adam Smith teria invertido a máxima cristã ama ao próximo como a ti mesmo, para o seu inverso, que é o segundo preceito, ou seja, ama a ti mesmo como tu amas ao teu próximo. De Hume, Adam Smith teria recuperado a idéia de que "os espíritos dos homens são espelhos uns dos outros" introduzindo a idéia do homo mimeticus, muito mais próximo do sujeito smithiano do que o caricatural homo oeconomicus. Finalmente, o teatro rousseauniano, trabalhado primeiro por Morrow, se prestaria a palco dessa ordem social. Transmudando papéis, o ator/espectador interiorizaria normas que emergem da experiência . Ao mostrar que elas não são transcendentes, Adam Smith teria reafirmado sua filiação à filosofia empiricista. Nada a dever à razão cartesiana. Para concluir este ponto, retomemos mais uma vez a bela e elucidativa frase do filósofo: "Cada característica de um ser humano é medida com a qual se julga a mesma característica do outro, eu avalio sua visão pela minha ,sua razão pela minha razão, seu ódio pelo meu ódio, seu ressentimento pelo meu ressentimento, seu amor segundo o meu amor. Não tenho e não posso ter outra forma de julgá-los. (Smith, TSM ,66) .

Antes de prosseguir nos argumentos de Dupuy, permito-me aqui tecer alguns comentários, revisitando a frase mais conhecida de Adam Smith: "Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que devemos esperar nosso jantar, mas da consideração que eles tem pelo seu próprio interesse." A frase é considerada como auto-explicativa. De uma só feita, o interesse aparece afirmativamente e a simpatia, confundida com a benevolência, assume uma forma negativa e descartável. Tendo a moral como superada, o filósofo daria lugar ao economista e os fundamentos de uma disciplina autônoma finalmente seriam definidos. Voltemos, no entanto, ao texto e observemos o que vem a seguir. "Dirigimo-nos não à sua humanidade mas à sua auto-estima (amor próprio) e nunca lhes falamos das nossas próprias necessidades mas das vantagens que advirão para eles. (Smith, RN, livro I, cap II). A seqüência deste parágrafo, tão infinitamente citado pelos defensores da ruptura da obra ou de uma possível superação, não mostra apenas a noção de interesse privado associado claramente à noção de amor-próprio, como também o articula claramente a uma moralidade. Adiciono uma frase de Adam Smith na TSM para percebermos melhor a ponte entre as duas obras: "é porque os homens são inclinados a manifestar simpatia pelas nossas alegrias e não pelas nossas aflições (aflição-necessidade) que nos dissimulamos nossa pobreza e sublinhamos nossas riquezas (vantagens- riqueza)" (Smith, TSM ,2 123). Aqui fica evidenciado, não apenas o desafio de Adam Smith em tentar dar conta da gênese de uma sociedade hierarquizada, evidenciando que "o rico faz glória de suas riquezas e o pobre tem vergonha e dissimula sua pobreza", mas também a revelação de que a aprovação estaria ligada a determinadas normas morais da sociedade liberal nascente.13

Recuperando a simpatia, ponto central da TSM, Dupuy tenta eliminar todas as confusões em torno dessa noção, sendo a maior delas, a de confundi-la com benevolência. Embora a simpatia venha diretamente associada ao sentimento de compartilhar, de se condoer, Dupuy sublinha o julgamento da aprovação, centro propulsor da noção. O desejo imperioso de ser aprovado daria substância ao self-love que seria na verdade uma modalidade reflexiva da simpatia, tornando-o indissociável e estabelecendo uma relação nítida entre as duas obras. Dupuy não explora as virtudes que Adam Smith valoriza como a justiça, virtude que também considero como a fundamental dentro da TSM. Mas mesmo deixando de lado o sentido valorativo da moralidade, é possível concordarmos com ele quando afirma que Adam Smith convoca toda a sua teoria moral e social para a elaboração do modelo da mão invisível. A economia se reconcilia com a moralidade.

Como vimos, o autor não apenas evidencia claramente o sentido unitário da obra, como procede também uma crítica ao reducionismo. Ao fazer esta crítica Dupuy abre espaço para definirmos a situação paradoxal que animou esta possibilidade na história do pensamento: a constituição da autonomia da ciência só é possível com a sua redução. Neste processo tenta-se reduzir a economia, a obra e o filósofo.

III

O autor, a obra e o nascimento da economia: a reconciliação inevitável com a filosofia.

Por mais egoísta que seja o homem existe na sua natureza princípios que o fazem se interessar pele sorte do outro. Adam Smith, TSM.

A partir da história das idéias e do debate em torno de Das Adam Smith Problem, podemos agrupar os autores em duas interpretações sobre Adam Smith, sua obra e os termos do nascimento da economia.



A primeira interpretação14, pode ser clarificada a partir de um tratamento "evolutivo" sobre a obra e o autor. Em relação aos fundamentos da economia, encontramos algumas variações entre esses autores. Os argumentos vão desde os que defendem claramente a ruptura da obra de Adam Smith e a passagem/superação do filósofo ao economista até aqueles que constróem seus argumentos através da preocupação em demonstrar que existe um processo na história das idéias que forneceu as condições metodológicas de autonomização da economia . No entanto, o que os une é a busca dos fundamentos da economia e uma perseguição pelos seus contornos disciplinares. Levada a extremo, esta leitura significa em última análise que: I) todo o debate da modernidade serve apenas para mostrar que a economia persegue fundamentos que lhe permitirão entrar no quadro das ciências, separando-a do príncipe e depois da moralidade; II) a TSM se vê transformada em delírio da filosofia moral ou ritual de passagem do jovem e romântico filósofo para o maduro economista da RN; III) ocorreria uma ruptura ou mudança de enfoque entre as duas obras, a segunda expressando superação ou redenção da primeira; IV) o sujeito smithiano é visto como um prelúdio do HER; V) e finalmente, toda teoria de Adam Smith estaria representada na RN, considerada como prelúdio para a explicação mais acabada dos neoclássicos. Esta leitura definiu como grande legado a mão invisível transformada em operador técnico . Um século depois, a teoria neoclássica retomará e traduzirá nos seus próprios termos esta questão. Neste sentido, Walras e seu modelo canônico se constituirá no tratamento teórico acabado, posto que oferece uma solução lógico-matemática para a explicação da ordem social de Adam Smith.(Ganem,1996).

Nessa interpretação da obra de Adam Smith , o interesse se traduz em self-interest e princípio explicativo minimal para esta ciência espelhada na física. A idéia da mão invisível como um operador social se dilui e se traduz num mecanismo automático. O mercado se distancia da idéia de ser uma teoria do social, esta tornando-se uma pálida referência destituída de seu conteúdo propulsor. Ao invés de ocorrer uma ascensão do econômico ao social (Rosanvallon, 1979 ), o que se observa é uma redução do social ao domínio agora recortado do econômico. Finalmente, a solução metodológica colocada no centro temático apaga toda tensão existente entre uma questão posta que lhe é maior porque é do domínio da filosofia, e o recorte necessário para criar o fundamento para a ciência.

Se a questão veio ou não da filosofia já não tem mais a menor importância. Ela teria sido absorvida sem tensões pela economia, como se a ela pertencesse . Esta leitura da obra dos marcos do nascimento da economia e da solução de Adam Smith pode ser muito coerente e com argumentos acumulados e desenvolvidos, mas é fundamentalmente pobre e reducionista da real contribuição desse autor, cuja obra tem sido um livro aberto para constantes e múltiplas questões. Entre elas, destaco a sua própria contribuição sobre a natureza do fenômeno econômico , as tensões não resolvidas com relação à política e a moral e os múltiplos rumos que sua matriz teórica gerou para a história do pensamento econômico.

Uma segunda leitura alternativa sobre a obra, o autor e o nascimento da economia mostrou-se, no entanto, possível. Ela foi desenvolvida ao longo dos dois movimentos anteriores desse trabalho, buscando seus argumentos e acolha não apenas no rico debate da modernidade tratado como foco propulsor da solução de Adam Smith como na irreverência incontinente dos inúmeros estudiosos que, espalhados no tempo e no espaço, não aceitaram esta leitura empobrecida e reducionista do autor da obra e da economia . O eixo argumentativo do texto se fez na exploração da tensão existente no duplo desafio de Adam Smith , qual seja, encontrar uma solução para uma questão do pensamento filosófico alicerçado no campo disciplinar da economia. Esta opção metodológica permitiu explorar o convívio difícil entre uma questão desafiadora que lhe é maior, porque parte das grandes indagações da filosofia na história das idéias da humanidade e a busca do fundamento econômico. Ou ainda, compreender as tensões produzidas pelo desejo de recorte disciplinar e uma explicação da ordem social que desafia a resposta da filosofia política dos séculos XVII e XVIII .

E foi tendo em vista esta peculiar tensão que múltiplas questões podem e devem ser continuamente recolocadas, como por exemplo: O que significa fornecer uma explicação para a emergência de uma ordem social ? O que significa afirmar que o mercado para Adam Smith é uma teoria da sociedade? Foi possível explicar a emergência da ordem social liberal, alicerçada em fundamentos puramente econômicos? Ou ainda, Adam Smith consegue recortar o domínio da economia e faze-la nascer livre da moral e da política? O que significa afirmar que a economia nasceu sob a égide de um filosofo moral?

Retomo o eixo do argumento e, através desse foco tensional, recolho os argumentos levantados e explorados ao longo do trabalho que devolvem o autor, sua obra e a própria economia à filosofia:

- A solução de Adam Smith só pode ser compreendida na sua real extensão, se levarmos em conta, não apenas a complexidade de um processo que teve berço na filosofia política e moral dos séculos XVII e XVIII, mas também o diálogo, a assimilação e o conflito que Adam Smith estabeleceu com este quadro de idéias. Ai sim, o resultado pode ser entendido como a palavra final desse processo ou a melhor explicação para a ordem social;

- A competência e a natureza filosófica do autor é inequívoca e está manifesta na obra Teoria dos Sentimentos Morais. Esta obra é um tratado filosófico e moral que o tempo e o debate provaram que não pode ser descartado. A Teoria não é nem obra do delírio nem da imaturidade do autor: o filósofo não se transfigura em economista. A economia nasce sob a paternidade de um filósofo moral;

- Não é possível, portanto, compreender a obra sem entender a sua unidade. Isto significa iluminar a Riqueza com os escritos filosóficos da Teoria e entender a relação entre as duas. Na explicação da ordem social, a TSM funciona como obra tão importante quanto a RN, não sendo portanto a ela redutível;

- A noção de interesse privado não se esgota no self-interest e, carrega consigo a moralidade subjacente à noção de amor-próprio;

- O sujeito smithiano é um ser incompleto, mais próximo de homo mimeticus, e não pode, portanto, ser entendido como prelúdio do homem econômico racional;

- A mão invisível é um operador social e a idéia de mercado de Adam Smith se constitui numa teoria da sociedade, ela é, em ultima análise, a própria explicação da emergência da ordem social liberal;



- Finalmente, o nascimento da economia em Adam Smith não se faz rompendo com a moralidade. Isto significa que ele deixou clara a tensão e a situação paradoxal para seus herdeiros: a autonomia da economia só poderá ser realizada com reduções. Se posteriormente, outros teóricos reduzirão a economia, isto é uma outra história. Adam Smith, seguramente, não o fez.
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1 Professora do Departamento de Economia da Universidade Federal Fluminense.

2 Adianto que embora seja possível recuperar a herança teológica e fazer uma leitura da mão invisível associada ao divino, ver à propósito, Evensky,(1998); Martin,(1990); Davis,(1990), compartilho da idéia que Adam Smith utilizou-a como metáfora, como recurso para fornecer inteligibilidade às regularidades do fenômeno econômico. Uma versão contemporânea desta perspectiva, ver Pack (1995). Uma visão das múltiplas noções de mão invisível na obra de Adam Smith, ver Ahmad,(1990).Uma visão da mão invisível como mecanismo automático e maior legado de Adam Smith, ver Tobin,(1992).

3 A ruptura através das teses galileanas do cosmo ordenado e hierarquizado aristotélico significa não apenas a expulsão dos anjos do céu, mas o descortinar de um longo caminhar que o homem solitário necessariamente terá que enfrentar para desvelar o mundo .... Através de inúmeras rupturas, matéria espírito, natureza/ homem, razão/ sentidos, sujeito/ objeto a ciência se afirmara como o locus da verdade e a racionalidade científica moderna expressará uma nova e revolucionária estrutura de produção de verdade sobre o homem , a natureza e o conhecimento. Ganem (1989,269)

4 É neste sentido que Leo Strauss analisa a contribuição de Hobbes, para a filosofia política e do direito. Antes de qualquer forma de governo, o estado fruto do pacto é um garantido dos direitos à vida e o fato moral essencial na solução hobbesiana não é um dever mas um direito. "Se o liberalismo é a doutrina política cujo eixo fundamental são os direitos naturais do homem por oposição aos seus deveres e se a missão do estado consiste em proteger estes direitos, então o fundador do liberalismo é Hobbes''. Strauss, (1986: 166)

5 São inúmeros os autores que consideram que a contribuição de Adam Smith constitui-se numa análise que não esconde a natureza conflitiva da ordem liberal e discorre sobre a sua preocupação com a justiça. Outros ainda mostram que a justiça seria a virtude fundamental da TSM, sendo também a chave para o entendimento da explicação do desenvolvimento econômico na Riqueza. Entre eles cito: Thevenot,(1990), Defalvard.( 1995), Salter (1994) e Johnson (1990).

6 Mandeville para muitos é entendido como o autor que com sua fina ironia foi um ácido crítico ao capitalismo antes do seu triunfo. Ver à propósito, Hirshman (1977) e Blom, (1997).

7 Talvez seja esta a razão pela qual Adam Smith não polemiza com Hume e sim com Hutcheson na Teoria. Após tecer considerações sobre as várias formas de virtude, dialogando com Platão, Aristotéles e Epicuro os dois primeiros porque associam a idéia de virtude à correção e o último porque a identifica à prudência , ele centra sua crítica na idéia de virtude como benevolência de Hutcheson a qual considerava excludente. Vemos ai importantes passagens que mostram que Adam Smith alem de dialogar com competência com os monstros sagrados da filosofia, deixa claro uma questão nevrálgica para ele: o amor próprio não está sob a égide do egoísmo e deve ser recuperado como virtude. Ver a propósito, Smith (TSM , 1997:471- 570)

8 Sobre os múltiplos aspectos de sua obra, que tem se mostrado inesgotáveis no tempo, consultar o excelente survey de Brown, (1997b)

9 Existiriam dois instintos na natureza humana o selbstlieb é um comportamento de conservação compatível com o amor ao próximo e o selbstsucht que seria fundamentalmente conflitivo. Knies acusa Adam Smith de ter confundido o selbstsucht com o interesse privado e assim ter ignorado o selbstlieb, fonte da moral. Ver Bertrand, (1993)

10 Conhecida e elucidativa a frase de Helvetius : assim como o mundo físico é regido pelas leis do movimento o universo moral é regido pelas leis do interesse. Helvetius citado por Hirschman, (1979,45)

11 Entre os autores, Richard Zeyss (1889), Paszkowski's (1890) , Hasbach ( 1891) e Delatour (1896) . Para maiores detalhes, consultar, Raphael e Macfie (1976) e Bertrand (1993).

12 Adam Smith rompe com a noção de amor próprio ligada fundamentalmente ao egoísmo e a compreende como algo ligada a um julgamento ( aprovação) . Ao dialogar com Hutcheson criticando-o, Adam Smith escreve: Hutcheson estava distante da idéia de que o amor próprio pudesse ser virtuoso e que o prazer da auto aprovação , o aplauso reconfortante de nossas próprias consciências, rebaixava o mérito de uma ação benevolente Smith, (TSM,1997; 529).Das relações entre prudência e benevolência, ver Clark (1992).

13 Só a título de elucidação da crítica que Adam Smith faz ao longo da TSM à degradação da moralidade na sociedade, cito: esta disposição a admirar e quase idolatrar aos ricos e poderosos e a depreciar os pobres é a causa da corrupção de nossos sentimentos morais. ( Smith, TSM, 138)

14 Poderíamos englobar nesta primeira leitura não apenas Dumont e Hirschman, como também os que defendem a ruptura no debate em torno de Das Adam Smith Problem , alem de grande parte da historiografia do pensamento econômico que tendeu até há pouco tempo a desconsiderar a TSM. No entanto para os mais estudiosos da obra do autor, o consenso sobre a importância e a unidade inequívoca da obra existe e se difunde cada vez mais. O interesse crescente pela TSM , particularmente na última década se observa pelas inúmeras traduções e reedições da obra nas mais variadas línguas.




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